Special Publication of the Brazilian Society of Neurosurgery - SBN

Edição 01 • Setembro de 2018

ENTREVISTA/ESPECIAL /////////////////////////////////////////////////////

Neurocirurgiã e mãe

Em qualquer carreira, uma das questões que mais percorrem a cabeça das mulheres que anseiam ter filhos é como alcançar o equilíbrio entre a vida pessoal e a profissional. Elas não querem abdicar de sua profissão e tão pouco dos momentos em família, principalmente suas obrigações com os filhos. A neurocirurgiã Alessandra Gorgulho é direta na resposta à esta dúvida: “Não há equilíbrio. Quem descobrir, por favor me passa a fórmula”, afirma com muitos risos.

Aos 45 anos, a especialista junto com o esposo, também Neurocirurgião, fundaram o Centro de Neurociência do HCor – Hospital do Coração (HCor Neuro), quando retornaram ao Brasil em 2012.  Têm um filho de 11 anos, a quem ela atribui a maior mudança de sua vida. Após a faculdade de medicina em 1996, a Dra. Alessandra terminou a residência em Neurocirurgia na UNIFESP (Universidade Federal de São Paulo) em 2002  e a especialização em Neurocirurgia da Dor na Faculdade de Medicina da USP (Universidade de São Paulo). Interessou-se por uma área em Neurocirurgia pouco desenvolvida à época no Brasil e buscou diferenciar-se em duas sub-especializações nos Estados Unidos. Tornou-se Professora da Universidade da Califórnia em Los Angeles. Lá conheceu o seu marido. o neurocirurgião Dr. Antonio De Salles. “Meu marido  e eu temos a mesma subespecialidade, como se já não bastasse sermos os dois neurocirurgiões! Isso tem sido uma grande revelação profissional para ambos, pois dividimos o mesmo entusiasmo pelos últimos desenvolvimentos científicos e pela pesquisa, além de nos completarmos nos cuidados dos pacientes. Somos dois cérebros para ajudar cada uma das pessoas que confiam em nosso trabalho no momento mais difícil de suas vidas, quando a saúde falha”, remarca.

Dra. ALESSANDRA AUGUSTA GORGULHO

Neurocirurgiã no Hospital do Coração (HCor) em São Paulo e Presidente da

Dra. MARISE AUGUSTO FERNANDES AUDI

Neurocirurgiã e Tesoureira da SBN.

Dois anos após o casamento, o casal resolveu ter um filho. “Senti que era o “timing”, pois eu já havia atingido os objetivos que tinha traçado para meu treino profissional, portanto resolvi priorizar a família. Minha mãe nos ajudou muito, pois ela se mudou do Brasil para os Estados Unidos para ajudar com o bebê. Fui muito afortunada nesse sentido, ninguém melhor que a própria mãe para cuidar de meu filho quando tenho uma profissão que demanda tanto. O difícil em se acoplar ambas as funções sendo Neurocirurgiã é que a especialidade não acomoda dedicação parcial. Ou se está no jogo ou não. Dessa forma, é importante definir que “tipo de jogo jogar”, ou seja, qual será o foco do exercício neurocirúrgico na sua carreira. A mulher neurocirurgiã e mãe, em minha opinião, tem de encontrar um nicho e focar, com dedicação total. Nesse aspecto, o homem acaba podendo ser mais “ambicioso” nos seus objetivos dentro da profissão pois sofre menos pressão dos aspectos familiares, embora claro que muitos se envolvam e participem. O Antônio é muito presente na educação, formação e recreação de nosso filho. Mas o papel feminino é diferente e eu mesma acredito nesse formato de distribuição de afazeres.  Novamente é uma sorte grande que trabalhamos tão juntos pois conto com o suporte e o entendimento da família toda, inclusive de minha mãe, na “distribuição” de tarefas. Contudo sempre acho que estou fazendo “menos” seja ora num aspecto ora em outro, sempre busco melhorar. Dá uma satisfação enorme ser tão ocupada, mesmo ainda não tendo encontrado o equilíbrio como me perguntou há pouco. Todavia não me bastaria uma vida mais “pacata””, conta.

Após o nascimento do seu filho, a neurocirurgiã continuou a exercer seu trabalho com toda a determinação de sempre, mas percebeu que outros assuntos se tornaram prioridades em sua vida. Para ela, o bem-estar de seu filho se tornou tão importante quanto seus objetivos profissionais. “Eu amo o que faço e me dedico a todos os pacientes, mas passei a não ter mais apenas como meta o sucesso profissional e, sim, o sucesso como mãe”, explica.

Foi por causa do pequeno Lucas que a Dra. Alessandra voltou ao Brasil.  “O Estados Unidos da América é um país muito solitário. Apesar de haver muitas possibilidades de estudo e crescimento, gostaria de criar meu filho perto dos nossos familiares. Com certeza, ele acelerou a nossa vinda ao Brasil”, afirmou.

A especialista afirma que a rotina é corrida e, que a sensação de culpa por não poder acompanhar o filho em muitos momentos é quase que diária. “Mas eu acredito em educar pelo exemplo. Faço os momentos que tenho com ele prazerosos. Procuro dar qualidade ao nosso contato. Há mães que passam quase todas as horas do dia com seus filhos e não acompanham seu desenvolvimento acadêmico nem tem um diálogo tão aberto com seus filhos como eu tenho com o meu.”, ressalta.

Educar pelo exemplo também é uma das frases da neurocirurgiã e membro da Diretoria e do Conselho Deliberativo da SBN, Marise Augusto Fernandes Audi, mãe de três crianças. A especialista enfrentou um desafio: teve seu primeiro filho ainda durante a residência em neurocirurgia. “Entrei na residência no início de 1985, aos 23 anos, quando passaria 1 ano na neurologia clínica e 3, exclusivamente na neurocirurgia. Namorava há 4 anos com um engenheiro da Petrobrás e decidimos nos casar. Em março de 1985, após 22 dias de preparativos, engravidei 3 meses após”, lembra.

O casal morava no litoral de São Paulo, na cidade de Santos, e tinha uma rotina bastante movimentada. Às 5h30 da manhã, a Dra. Marise deixava sua casa e ia à São Paulo para trabalhar, retornava apenas por volta das 22h. “Trabalhei durante todo o tempo, até o último dia, sendo que operei durante o dia e entrei em trabalho de parto de madrugada. Fiquei afastada pelo mínimo de tempo, sem juntar as férias, para não prejudicar minha formação”, conta.

No caso da Dra. Marise foi a mãe que também a ajudou com os cuidados com o bebê. A especialista também sentia pela falta de tempo com a filha. “Lembro que, diariamente, minha mãe me dizia: que pena, hoje ela começou a fazer isto ou aquilo e você perdeu. Foi muito difícil, mas superei”, afirma.

No término da residência de neurocirurgia, que durou quatro anos, o casal teve uma segunda menina. “Trabalhei arduamente durante toda a gestação e também, só parei no último dia. A bebê estava com 18 dias, quando, por insistência minha, assumi o plantão à distância e passei visita nos pacientes internados no final de semana que estava pré-determinado para mim, para não prejudicar a equipe. Levava a bebê para a escolinha, com inúmeras mamadeiras de leite materno congelado, ordenhado durante a noite. Voltei a trabalhar em 2 meses e 1 dia e sempre que possível, passava na escolinha para amamentar o bebê”, conta.

A terceira filha do casal chegou quatro anos depois, quando a Dra. Marise conseguiu acertar um pouco mais sua rotina. Fora dos plantões, ela conseguia passar as noites e os finais de semana com as meninas e o marido.

Quando o equilíbrio parecia ter chegado à carreira da neurocirurgiã, a vida lhe impôs outros desafios. “Em 1994, meu pai faleceu repentinamente e eu tive que assumir as empresas da família por meio período. Assim sendo, trabalhava como médica pela manhã, alternando dias cirúrgicos com dias de consultas e à tarde era empresária”, lembra.

Cinco anos depois, sua mãe faleceu e dois anos após este luto, a neurocirurgiã foi acometida por um câncer de mama. “Nunca parei de trabalhar, exceto nos 3 dias subsequentes às quimioterapias, quando passava muito mal. Consegui trabalhar normalmente durante as radioterapias. Fiquei careca, sem cílios ou sobrancelhas, por um ano. Foi horrível”, lembra

Ao se recuperar da doença e se separar do marido, por excesso de trabalho, a especialista percebeu que precisava trabalhar menos e dedicar mais tempo a ela. Portanto reduziu sua carga horária. “Em 2006 me divorciei e em 2007, casei novamente com o mesmo marido. Durante o divórcio, ele ficou morando com as crianças, e na guarda compartilhada, elas passavam 2 dias da semana comigo e finais de semana alternados. Após casar novamente, comecei a ter mais tempo para mim, iniciei atividade física em academia, comecei a cuidar melhor da saúde, da alimentação e até fiquei mais vaidosa”, explica.

Para a neurocirurgiã, é impossível não perder nada da vida pessoal nem da profissional quando se opta em dedicar-se às duas, mas é possível ser feliz em ambas as áreas. “Hoje estou com 57 anos, casada e tenho o maior orgulho da família e das nossas conquistas. Para as que querem constituir família: não descuidem dos maridos. Redobrem os cuidados e atenção a eles. Nem todos suportam esse ritmo e a ausência da mulher em casa, por tão longos períodos ”, concluí.

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Giro Pelo mundo /////////////////////////////////////////////////////

Os desafios das mulheres neurocirurgiãs em quatro continentes

O amor é mesmo um sentimento universal. A paixão pela complexidade do cérebro e suas especificidades é o ponto em comum entre as neurocirurgiãs do mundo, que optaram em transpor todos os obstáculos que a realidade impunha para ajudar as pessoas por meio da medicina.
Se no Brasil, as mulheres que escolhem a neurocirurgia como profissão enfrentam descréditos em algumas situações, em diversos países ao redor do mundo elas passam por circunstâncias parecidas ou até piores. Em comum, todas as neurocirurgiãs mostram que é possível vencer as convenções sociais e, assim, escrever suas próprias histórias.
Acompanhe a realidade da neurocirurgia em alguns países:

PAQUISTÃO E ARABIA SAUDITA

No continente asiático e com pouco mais de 190 milhões de habitantes, está o Paquistão que se tornou um país independente apenas em 1947, ao deixar de ser colônia britânica. O país não é considerado um local pacífico porque, além de conflitos internos, protagonizou guerras históricas com grandes potências da economia mundial e se mostrou altamente militarizado e portador de armas nucleares.
No mesmo continente, está a Arábia Saudita com cerca de 32 milhões de habitantes. O país é um dos maiores produtores de petróleo do mundo e foi formado em 1932, após a unificação de alguns territórios. Graças ao petróleo, o país estabeleceu uma relação de amizade com as grandes potências internacionais.
Em ambos os países, a maior parte da população é mulçumana, mas a divisão xiita e sunita entre eles é motivo de conflitos religiosos. A política dos dois locais é bastante rígida para as mulheres que, de maneira geral, não têm os mesmos direitos que os homens. E a prática da medicina, tanto no Paquistão quanto na Arábia Saudita, não é uma ciência que está acima da fé. A religião é a mais forte das crenças.
Na história de luta e conquistas dos dois países, estão duas mulheres – Dra. Aneela Darbar (Paquistão) e Dra. Aisha Alhajjaj (Arábia Saudita) que resolveram desafiar a realidade e ultrapassar os obstáculos das leis sociais e governamentais por um sonho – de ser neurocirurgiãs.
A caminhada em busca de realizar sonhos e obter tanto a satisfação pessoal quanto profissional não foi fácil para nenhuma destas mulheres, mas elas relembram suas histórias com muito entusiasmo.
A Dra. Aisha, por exemplo, foi a primeira mulher neurocirurgiã da Arábia Saudita e disse ter escolhido a medicina com apenas 3 anos de idade, a paixão pela especialização surgiu no primeiro contato com a disciplina. “A primeira dificuldade que enfrentei foi que a neurocirurgia por si só é um campo desafiador. Depois, a de ter sido colocada em meus ombros, a responsabilidade de provar que as mulheres podem fazer essa especialidade”, lembra.
A Dra. Aneela, por sua vez, que se tornou uma das dez neurocirurgiãs no Paquistão – há 150 especialistas do sexo masculino em neurocirurgia – também lembra que a escolha da profissão surgiu na infância. “Quando minha avó sofreu um derrame senti que eu deveria me tornar uma neurocirurgiã. Desde o episódio, fui atraída pelas complexidades da mente e do cérebro e sempre quis aprender e explorar sobre anatomia e diferentes funções deste sistema”, afirmou.
Para a médica, seguir o sonho não foi uma tarefa fácil, uma vez que a profissão por si só tem uma linha muito tênue entre a admiração e a rejeição das pessoas. “A neurocirurgia é de longe uma das ocupações mais desgastantes do ponto de vista emocional e físico. O pêndulo oscila para nós diariamente, passamos de deuses a nada em questão de minutos. Nós não temos espaço para vacilar”, afirma.
Escolher medicina, no entanto, uma carreira em que erros são pouco aceitos, não era o maior dos obstáculos para as médicas, ser mulher, sim. “Numa sociedade patriarcal como o Paquistão, as mulheres são frequentemente tratadas como cidadãos de segunda classe. Portanto, aceitar uma mulher para operar na posse mais valiosa de seu corpo, ou seja, o cérebro não é fácil. Os pacientes sempre procuram um homem mais velho e experiente para ser seu neurocirurgião”, comenta a Dra. Aneela.
A Dra. Aisha também sentiu a mesma dificuldade. “Durante minha carreira, a maior dificuldade que enfrentei, sem dúvida, foi o meu espaço dentro de um ambiente muito masculino e competitivo. Entender a política e sobreviver”, lembra.
A confiança no trabalho das especialistas foi conquistada aos poucos, com a indicação de um e de outros que foram atendidos pelas médicas. Atualmente, as neurocirurgiãs têm uma rotina bastante exaustiva e carregam a responsabilidade de motivar e apoiar todas as estudantes de medicina que querem seguir a neurocirurgia como uma opção de carreira.

Argélia, Estados Unidos e França

A diferença proporcional entre homens e mulheres neurocirurgiões na Argélia, Estados Unidos e França é menor do que nos países asiáticos. As mulheres que optam pela especialidade enfrentam alguns descréditos por determinadas pessoas, mas nada comparado aos desafios dos países islâmicos. Na Argélia, por exemplo, há 340 neurocirurgiões certificados, sendo 85 (25%) deles mulheres, o maior percentual do mundo. A Dra. Bakhti Souad é membro da Sociedade Argelina de Neurocirurgia e presidente do Comitê Feminino da WFNS – World Federation of Neurosurgical Societies e afirma que no seu país, as dificuldades de mulheres que optam pela especialidade são as mesmas dos homens.
“A principal desvantagem para os neurocirurgiões argelinos no meu país é que alguns deles não confiam em si mesmos e nas tradições”, afirma.
A francesa Dra. Ana Paula Narata também compartilha da mesma opinião da Dra. Bakhti. “É uma especialidade muito masculina em qualquer país, mas não reservada aos homens. Nós podemos ter nosso espaço e mostrar nosso valor”, ressalta.
Para a doutora americana Kathryn Ko, no entanto, a diferença do número de mulheres e homens na especialidade foi um desafio na sua carreira. “Minha formação em residência em neurocirurgia foi muito desafiadora. Havia poucas mulheres, por isso foi bastante solitário. Mas, eu estava disposta a passar pelas dificuldades por causa da minha paixão pela neurocirurgia”, lembra.
No país norte americano, a luta pela igualdade das mulheres na especialidade começou em 1990, com a criação do Women in Neurosurgery – WINS, grupo cujo objetivo é promover um ambiente cooperativo e de apoio entre as mulheres que praticam neurocirurgia, incluindo aquelas em treinamento para se tornarem neurocirurgiãs. À medida que o grupo cresceu, tornou-se uma organização internacional com membros na Ásia, Europa e África.
Em 2010, ao completar 20 anos de existência, alguns membros da Comissão WINS escreveram artigos e ensaios sobre suas experiências na neurocirurgia. Os textos compuseram o livro Heart of a Lion, hands of a woman, que mostrou a força da Comissão e de todas as neurocirurgiãs pelo mundo.
Apesar dos diferentes locais de atuação, as três neurocirurgiãs acreditam que o grande desafio da profissão é administrar o tempo entre a vida profissional e pessoal. “Nossa rotina é a mesma para todas as mulheres que abraçam uma carreira. Mas se temos paixão em nosso trabalho, tudo é possível”, finaliza a Dra. Bakhti.

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Futuras neurocirurgiãs /////////////////////////////////////////////////////

Os desafios de quem escolheu a especialidade recentemente

“Desconheço alguma personagem feminina da área que não tenha ao menos uma história de tratamento desigual para dividir conosco. Já ouvi várias e compartilho do sentimento de injustiça, mas também da força para superá-la”, diz a estudante de medicina, Cibelle Melo, de 22 anos. Ciente dos obstáculos, disposição para nadar contra a corrente e vontade de fazer parte da mudança. Este é o pensamento das futuras neurocirurgiãs.
Cibelle acredita que a neurocirurgia tem uma carga de “abnegação e sacerdócio” elevadíssima. “Uma das matérias introdutórias ao curso de medicina é a neuroanatomia e suas nuances. Desde o primeiro período, recordo-me de ter ficado absorta por tamanha complexidade já destrinchada e pela ideia de infinitude que aguarda ser descoberta. Lembro ter desejado, ainda como um sonho distante, que queria ser uma das responsáveis por isso. Hoje, na reta final do curso, permito-me olhar para trás e contemplar o fortalecimento desse anseio ao longo dos anos”, conta.

Cibelle Melo

Estudante do último ano de medicina da Universidade Federal da Paraíba (UFPB).

Iracema Araújo Estevão

Recém-formada em medicina pela Universidade São Francisco (USF).

Juliete Melo Diniz

Residente do quinto ano no Hospital do Servidor Público do Estado de São Paulo/IAMSPE.

Cibelle mora, atualmente, em João Pessoa e está no último ano do curso de Medicina da Universidade Federal da Paraíba. “Pretendo prestar o concurso para residência em neurocirurgia ainda este ano”, afirma. Além das atividades curriculares, ela divide seu tempo entre os estudos para as provas e o descanso e lazer com a família e amigos. “Desejo cultivar minhas amizades, ter uma família saudável e praticar tudo o que me motiva a ser mais e melhor”, explica.
As expectativas da estudante com a neurocirurgia são altas, mas ela sabe que ainda há muitos desafios pela frente. E acha que uma das maneiras de seguir em frente com mais facilidade é ter em quem se espelhar. “Ter pessoas inspiradoras que já desbravaram o caminho que pretendo seguir alimenta a convicção de que também posso trilhá-lo. E por isso agradeço. Ter companheiras para dividir a carga e compartilhar as mesmas inseguranças, desafios e sonhos torna tudo mais leve”, finaliza.

Outro olhar, mesma perspectiva

Iracema Araújo Estevão, de 26 anos, partilha da mesma ideia de Cibelle em relação a igualdade de gênero na neurocirurgia e está completamente empenhada em uma especialidade com maior presença feminina.
Recém-formada em medicina pela Universidade São Francisco (USF), é uma das organizadoras do Encontro de Mulheres na Medicina e já foi palestrante no Congresso da SBN onde dissertou sobre os temas “O que pode ser feito para encorajar as acadêmicas a entrarem na neurocirurgia” e “Por que ainda sonhar em fazer neurocirurgia hoje?”.
A médica escolheu a neurocirurgia ao longo do curso universitário e pretende prestar a residência no fim deste ano. “A especialidade era algo bem distante para mim no início da graduação, até porque eu não tinha muito contato com a área. Me aproximei devido a neuroanatomia que me fascinou e desde então procurei ligas acadêmicas para conhecer mais a fundo”, conta.
Ao ser questionada sobre os desafios, Iracema responde: “Não vejo como desafios, mas sim como constantes superações. Durante o meu percurso em busca da neurocirurgia tive alguns pontos que me motivaram a ser melhor a cada dia”.
A futura neurocirurgiã afirma que houve mudanças positivas em relação a igualdade de gênero, porém não acredita que o preconceito esteja totalmente extinto. “Ainda há algumas situações que vivenciamos e que passam quase despercebidas, como por exemplo, poucas mulheres são convidadas para fazer avaliações de trabalhos acadêmicos. São situações sutis. Mas, ao longo desses anos tem sido observado um grande avanço e a própria criação da Comissão Mulheres Neurocirurgiãs tem mostrado que assim como outras entidades internacionais, a SBN também busca debater sobre o tema, o que demonstra
que estamos no caminho certo”, afirma.
Para ela, o gênero não interfere nas atividades da área e a especialidade é uma questão de aptidão. “É necessário ter o perfil para a neurocirurgia”, finaliza.

Fase final da residência

A participação das mulheres na medicina vem aumentando progressivamente e a mesma tendência se observa nas especialidades cirúrgicas, entre elas a neurocirurgia.
Nos últimos cinco anos, como residente desta especialidade, recebi múltiplos questionamentos de estudantes interessadas em saber não apenas sobre o trajeto até a tão esperada vaga de residência, mas principalmente sobre a vida como mulher residente numa especialidade composta em mais de 90% por homens.
Decidi fazer neurocirurgia no terceiro ano da graduação e certamente este foi o período de maior dúvida. Se por um lado houve inúmeras pessoas para apontar dificuldades e incertezas (carga horária de trabalho, preconceito, questões familiares), por outro tive a oportunidade de conhecer neurocirurgiões que me incentivaram e me ajudaram a consolidar minha decisão. Diante disto continuei.
Durante as provas de residência ouvi relatos desanimadores sobre as entrevistas. Felizmente, as minhas se sucederam sem reveses. Fui aprovada em alguns serviços e optei por seguir no IAMSPE.
No IAMSPE as dúvidas se dissiparam. Passei a conviver com uma equipe que me incentivou no meu crescimento profissional e pessoal e pelos quais nutro grande admiração. Os primeiros anos requereram paciência e maior esforço físico, nenhuma barreira intransponível.
Nos anos subsequentes aprendi a operar, conclui mestrado e conheci diferentes serviços em outros países.
O paradigma e a cultura têm se modificado, dificuldades existem, mas o que se espera de um residente de neurocirurgia é dedicação e disposição independente do gênero.
Nesta fase final da residência, sigo com a tranquilidade de ter escolhido a especialidade correta e com a certeza de que nada, absolutamente nada, resiste ao trabalho bem feito.

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Matéria de capa /////////////////////////////////////////////////////

Pioneiras da neurocirurgia

Dra. Cleyde Cley da Silva Vescio

Formada pela Universidade de São Paulo – USP, nos anos 1970, com 1,53 metros de altura e apenas 44 quilos, Dra. Cleyde Cley foi a primeira mulher a cursar residência em neurocirurgia do Hospital das Clínicas – HC de São Paulo.
A médica tinha um avental especial devido ao seu físico e nunca teve nenhum tipo de privilégio por seu gênero. Enfrentou sim alguns descréditos, mas não enxerga como preconceito. “Ao optar pela neurocirurgia, eu tinha o direito à residência no HC por estudar na USP e foi natural que alguns colegas achassem que eu não chegaria ao fim da especialização. Eu me sentia desafiada sempre, mas nunca deixei de fazer nada que foi designado a mim”, conta a médica.

Ela acredita que a desconfiança vinha não apenas por ser mulher, mas pelo seu tipo físico mesmo, já que a neurocirurgia naquela época exigia muita força e resiliência. “Para abrir uma calota craniana, por exemplo, era preciso uma trepanação manual e depois usar a serra manual de Gigli. Além de toda esta força em cirurgias, havia a fase que exigia mãos firmes e a permanência em pé por horas”, lembra. Dra. Cleyde fazia tudo com muita dedicação e destreza e, em momento algum se sentiu prejudicada por ser mulher. “Sempre fui bem aceita e respeitada como profissional pelos colegas e principalmente pelos pacientes”, afirma.
Não teve inspiração para seguir a profissão, seus pais não eram médicos e tem a certeza que nasceu com a vocação para a medicina. “Desde pequena eu adorava brincar de hospital, de cuidar dos outros”, conta. Quando terminou a residência, foi trabalhar em um hospital particular e lá teve a oportunidade de assumir a liderança nas cirurgias. Naquela época, atendeu muitas emergências e sentiu os benefícios, raros, de ser mulher na especialidade. “Tanto pacientes homens quanto mulheres gostavam de ser atendidos por uma neurocirurgiã. Sentiam segurança”, afirma.
Também foi chefe de serviço em alguns hospitais particulares e, durante 28 anos, se dedicou ao Hospital Municipal do Tatuapé – SP, sendo a única mulher do período. Em 1974, Dra. Cleyde, com outras duas colegas do Rio de Janeiro, marcou mais uma vez a história da neurocirurgia. Elas foram as primeiras mulheres aprovadas no País para a obtenção do título de Especialista pela AMB – Associação Médica Brasileira. E, em 1978, Dra. Cleyde foi a primeira mulher aceita como membro da SBN, sendo a única durante alguns anos. “Vejo este episódio não apenas como um reconhecimento do meu trabalho e dedicação, mas também como grande responsabilidade. Por anos representei toda a classe de mulheres que objetivam a neurocirurgia como carreira e acredito ter sido um exemplo para todas elas”, comenta.
Aos 77 anos, a médica parou de operar e faz apenas atendimentos clínicos, em hospitais particulares. “Eu sinto muita falta das salas de cirurgia, às vezes até sonho que estou operando. Mas tive que parar não apenas pela força física que a área exige, mas também pela disposição de atender casos em finais de semana e madrugadas”, conta. Além dos atendimentos, ela também se dedica a sua segunda paixão – a arte. Já pintou dezenas de quadros e, como artista plástica, participou de diversas exposições em galerias de artes e salões, tendo recebido alguns prêmios.
Atualmente, é divorciada e optou por não ter filhos. “Dediquei a minha vida à neurocirurgia e não me arrependo de nada do que fiz. Tenho orgulho daquilo que fiz e deixei como legado”, afirma. Para a neurocirurgiã, determinação e coragem são os segredos para construção de uma carreia sólida em neurocirurgia. “O importante é saber que haverá desafios e que você será capaz de superá-los. Tudo vale a pena”, finaliza.

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CARREIRA DE SUCESSO /////////////////////////////////////////////////////

Pioneiras da neurocirurgia

“No meio do caminho tinha uma pedra. Tinha uma pedra no meio do caminho.” Trecho do poema ‘No meio do caminho’, de Carlos Drummond de Andrade
O poeta modernista brasileiro Carlos Drummond de Andrade escreveu, em 1928, o poema descrito na página anterior, considerado um escândalo na época por conter inúmeras repetições. Noventa anos depois, as frases do célebre escritor mostram que no caminho da vida há sempre um obstáculo. Todas as pessoas que tiveram que lidar com o inesperado e vencer um desafio, se veem nas palavras do poeta.
A paulista Dra. Cleyde Cley e a carioca Dra. Noya Chaves foram duas destas pessoas que poderiam ter inspirado o brilhante Drummond. Ambas desafiaram tudo o que estava em volta e resolveram se aventurar na neurocirurgia.

Nos anos 1970, quando optaram em seguir a especialidade, a neurocirurgia era vista como uma profissão masculina e as mulheres que cursavam medicina na época eram estimuladas a seguir as carreiras em obstetrícia, pediatria ou clínica geral.
Ao desafiarem esse senso comum, se tornaram referência no pioneirismo de mulheres nessa área da medicina. E servem ainda mais como exemplo quando contam a motivação principal para optar pela especialidade: ajudar a quem precisa. Naquele período, não existiam equipamentos para auxiliar em uma cirurgia como a tomografia, ressonância ou ultrassonografia de hoje. Os diagnósticos eram feitos por meio de angiografia com punção direta das carótidas e as craniotomias eram feitas com trépano manual. Abrir um crânio, por exemplo, exigia muito mais força física e resistência. Como esperavam, não tiveram nenhum tipo de benefício nas atividades físicas e as mesmas tarefas feitas por homens eram desempenhadas por elas. Poucos acreditavam que elas aguentariam, mas seguiram firmes e se tornaram grandes exemplos na história da neurocirurgia.

Dra. Noya Rocha da Silva Chaves

Em 20 de julho de 1940, nascia Noya, a filha caçula de um casal humilde que morava no Rio de Janeiro, mas vieram da lavoura no estado do Espírito Santo.
Noya teve uma infância simples ao lado da irmã mais velha, mas a adolescência foi um período que reservou o primeiro desafio da vida da futura médica. Ainda jovem, durante quatro anos sofreu com uma tuberculose ganglionar. “Quando entrei no primeiro ano da faculdade eu estava muito debilitada devido ao intenso sangramento menstrual que apresentava por não ovular”.
Mesmo com dificuldades para fazer com que seu corpo acompanhasse a sua mente, Dra. Noya resistiu e insistiu no curso de medicina da UEG – Universidade do Estado da Guanabara -–que, posteriormente, passou a ser UERJ.

Era uma das 6 mulheres da classe que tinha 70 homens e já no primeiro ano conheceu Victor Leonardo, que estava no segundo ano de medicina e depois de seis anos seria seu marido. A vontade de se especializar em neurocirurgia veio das maravilhosas aulas ministradas pelo professor Pedro Sampaio, no quinto ano do curso médico e de sua habilidade manual. Noya sempre foi muito boa em trabalhar com as mãos. Já na escolha pela carreira, causou certo espanto em algumas pessoas. “Quando um colega de curso do Leonardo soube que eu ia fazer neurocirurgia ele questionou meu marido – namorado na época – “você vai deixar? Isso não é especialidade para mulher. Meu marido disse: ela vai fazer o que ela quiser e eu vou apoiá-la”, lembra com carinho.
Em 1967, Dra. Noya entrou como bolsista no Pronto Socorro (PS) do Hospital Municipal Miguel Couto – RJ. Foram dois anos trabalhando no PS. Durante a experiência, conversou com o professor, chefe do serviço de neurocirurgia desse hospital, se poderia ajudar o neurocirurgião de plantão fora do horário de trabalho e auxiliá-lo nas atividades, e ele deixou. “Anos mais tarde, por meio de um neurocirurgião, descobri que este professor atendeu o meu pedido desacreditando que eu iria conseguir. Eu não sofri preconceitos diretos, mas fui desacreditada em algumas ocasiões”, comenta a médica.
Em 1968, já no sexto ano, teria que fazer o “internato” na cadeira escolhida como especialidade. “Procurei o catedrático do serviço de neurocirurgia do HUPE – professor Ribe Portugal – e perguntei se poderia frequentar o serviço dele. Fui muito bem aceita e acreditada. Na ocasião, o chefe de clínica era o professor Pedro Sampaio”, lembra.
Em 1969, Dra. Noya se tornou a primeira residente em neurocirurgia no Hospital Pedro Ernesto. Em 1970, foi contratada como médica do serviço e, em 1974, fez concurso de especialização e foi aprovada.
Seguiu sua carreira na instituição como neurocirurgiã e professora de medicina na UERJ. Após a saída do professor Portugal da cátedra e a entrada do professor Pedro Sampaio, foi nomeada como chefe de clínica onde permaneceu até 1997 quando se aposentou.
Trabalhou também como plantonista nos serviços de emergência do Hospital Getúlio Vargas e depois no Hospital Geral de Bonsucesso. Diz, no entanto, que sua verdadeira “casa” foi o HUPE, pois foi lá que se fez médica, aprendeu e ensinou neurocirurgia. “Os desafios da profissão, no entanto, foram grandes, não só para mim como para os demais colegas. Em uma época em que haviam poucos especialistas e menos tecnologias, o dia a dia era bastante intenso. Naquela época não contávamos com toda a tecnologia de equipamentos de saúde que nos ajudassem a identificar as doenças e nos auxiliassem nos tratamentos e os exames complementares, como mielografia e pneumoencefalografia, nos davam dados indiretos e as arteriografias eram feitas por punção direta da carótida. Após entrar em cirurgia e depois passar visita nos pacientes da enfermaria, eu descia para o serviço de radiologia onde auxiliava e aprendia a fazer os exames neuro- radiológicos. Devido ao intenso trabalho, algumas vezes eu quebrava duas ou três ampolas de glicose hipertônica, bebia para substituir o almoço que não tivera tempo de fazer”, lembra.
Mesmo com a vida agitada, a neurocirurgiã afirma com toda a certeza que não teve que abdicar de nada para seguir adiante.
Em 13 de fevereiro de 1969, casou-se com seu namorado de faculdade, Leonardo, que havia se especializado em psiquiatria. “Por conta de problemas ovarianos, eu não podia gerar um filho. Então, à medida que fomos nos estabilizando na profissão, e depois de muitas conversas, decidimos adotar uma menina com 11 dias de nascida, Tatiana, atualmente com 44 anos. No ano seguinte, adotamos a segunda menina com um mês e meio, Cristiane. Hoje com 43 anos”, afirma.
A Dra. Noya teve uma carreira brilhante e desempenhou com maestria a profissão que escolheu. Em 1997, ela se aposentou e, atualmente, se dedica à família e à saúde. Faz hidroginástica, pintura em quadros, passeia com seus dois netos, adora tecnologia e, em fevereiro deste ano, completou 49 anos de casada. Para os jovens neurocirurgiões, a doutora não deixa conselhos. “Sou mais a favor dos exemplos. Eu aprendi muito com os exemplos. Persistência, coragem e vontade de vencer é o segredopara seguir em qualquer profissão.
Eu nunca fugi das minhas obrigações. Sempre acompanhei os residentes nas cirurgias e fico feliz em ver que eu deixei alguma coisa, porque dei um  bom exemplo não só na vida pessoal como na profissional”, finaliza.

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A MEDICINA É DELAS /////////////////////////////////////////////////////

Cargos de liderança? Sim, elas podem!

Sob pressão. Foi assim o início da carreira da neurocirurgiã Audrey Beatriz Santos Araújo, que mora em Belo Horizonte, com seu marido e dois filhos. Aos 23 anos, quando se formou em medicina e chegara a hora de escolher a especialidade, a Dra. Audrey já tinha descoberto a sua paixão – o cérebro e suas complexidades, mas quase desistiu da carreira ao ser confrontada por alguns colegas. “Naquela época, as provas de admissão para residência médica continham uma entrevista como parte da pontuação.
Em um serviço em que fiz prova, na entrevista me disseram que neurocirurgia era coisa de homem, que lá não aceitavam mulheres, pois as cirurgias eram longas e desgastantes e que neurologia clínica combinava mais com o gênero feminino”, lembra.
A médica então partiu para o Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Minas Gerais (HC-UFMG), onde havia duas vagas de R1 e, por coincidência do destino, além da dela, outra mulher foi aprovada. “Como fui
a segunda a fazer a inscrição, o chefe da COREME – Comissão Nacional de Residência Médica da época sugeriu que eu fosse para casa pensar antes de me inscrever: tinham medo que duas mulheres juntas se jogassem ao chão e puxassem os cabelos uma da outra! Retornei no dia seguinte e nunca mais me afastei da neurocirurgia”, conta.

Dra. Audrey Beatriz Santos Araújo

Neurocirurgiã e coordenadora da neurocirurgia do Hospital Metropolitano Odilon Behrens.

Facilidade de comunicação e respeito com os colegas também são pontos importantes para conseguir se manter num cargo de liderança, em qualquer situação.

Hoje, com 49 anos, a médica ocupa o cargo de coordenação da neurocirurgia do Hospital Metropolitano Odilon Behrens. “É claro que necessitei abdicar de muitos eventos sociais e familiares, de horas de sono e tive muitas noites de trabalho árduo. Mas, com apoio familiar, com meus pais sempre me “empurrando”, meu marido (não médico) tão presente que alguns colegas de turma achavam que ele tinha se formado conosco e ainda dois filhos que se acostumaram com minha ausência e horas ao telefone e no whatsapp, consegui me manter sempre resistente e proativa”, resume.
O preconceito de gênero percebido na época, porém, ainda é algo inerente aos dias atuais, acredita. Mesmo depois de anos de carreira, ela enfrenta situações delicadas de machismo que, muitas vezes, vem como piadas. “Certa vez, durante um jantar do qual participei com um grupo de residentes e preceptores, um neurocirurgião perguntou-me o que eu faria se o aneurisma rompesse. Ele mesmo respondeu à pergunta, em tom de chacota: grita e puxa o cabelo?”, afirma.
Durante a residência, a neurocirurgiã provou a todos a sua capacidade e, aos poucos, foi conquistando o respeito e admiração dos colegas e chefes. Fez mestrado e doutorado no HC-UFMG.
Como resultado, a especialista acredita que a posição de coordenação fluiu naturalmente, pois contou com pessoas que souberam reconhecer e valorizar o seu trabalho. “Com o passar dos anos, conseguimos aumentar o movimento cirúrgico do hospital e melhorar a assistência aos pacientes, além de adquirir instrumental e materiais específicos para neurocirurgia. Então, quando percebemos, tínhamos um serviço bem equipado, em franco crescimento e realizando atendimento neurocirúrgico de qualidade. A introdução do programa de residência veio completar esta evolução natural. Não sou boa com marketing e propaganda, mas acho que se a pessoa se empenha, consegue receber o respeito dos colegas”, afirma.
Para construir a carreira sólida e de sucesso, a médica afirma que resiliência e paciência são fatores essenciais. “Facilidade de comunicação e respeito com os colegas também são pontos importantes para conseguir se manter num cargo de liderança, em qualquer situação”, comenta.
Em um serviço público, como o que a Dra. Audrey trabalha e que realiza atendimentos 100% pelo SUS, a tranquilidade deve ser ainda maior, uma vez que as dificuldades naturais da neurocirurgia se misturam com as incongruências da administração pública. “Reinventam a roda, tudo que o gestor anterior fez não tem sentido, os objetivos e metas modificam. Sempre tem alguém para questionar suas decisões. Então não é muito fácil identificar mulheres que se submetam a tanta inconstância e tenham vontade de se manter no cargo”, finaliza.

Realidade no Acre

A 2.135 km da capital do País, a neurocirurgiã Dra. Tammy Sabóia de Oliveira, de 31 anos, se formou em Medicina na Universidade Federal do Acre e fez Residência no Hospital da Restauração em Recife.
A Dra. Tammy escolheu a neurocirurgia logo após de entrar na faculdade. “Eu entrei na medicina para fazer alguma área cirúrgica e não sabia muito bem o que era. Quando eu estudei neuroanatomia, fiquei realmente muito fascinada e gostei muito”, conta.
E nada fez com que a doutora mudasse de ideia. “Não tive dificuldades para seguir com a carreira. A única coisa que posso afirmar é que esta área é muito pesada e o treinamento é muito intenso, pois são muitas horas de cirurgia, por exemplo. Mas acredito que seja assim em toda área cirúrgica e não apenas na neurocirurgia”, explica.
Há muitas diferenças do Acre para os outros estados do Brasil, mas a médica acredita que isso já tenha ficado para trás. “Quando fiz faculdade, eu via que a neurocirurgia daqui era muito defasada. Hoje não acredito que haja barreiras para atuação da especialidade”, diz.
Logo quando a Dra. Tammy terminou a faculdade, há cerca de 7 anos, o Instituto de Neurocirurgia e Neurologia da Amazônia Ocidental (INAO), assumiu a neurocirurgia do Acre. O INAO conta com um bom nível de profissionais e possui equipamentos de ponta como o neuronavegador cirúrgico.

Dra. Tammy Sabóia de Oliveira

Neurocirurgiã no Acre.

Atuação

A representatividade feminina é destaque no Acre. “No estado, só temos três neurocirurgiões que efetivamente moram aqui e trabalham no INAO e destes três, duas são mulheres”, diz.
Felizmente, a Dra. nunca sofreu preconceito por ser mulher e ama o que faz. “Considero que faço por vocação e apesar de tudo que a medicina acaba cobrando das nossas vidas, agradeço a Deus todo dia por ter me colocado nesse caminho”, afirma.
Quando perguntada sobre uma história marcante de sua carreira, a médica responde: “Não tem uma, são várias. Sempre me emociono com mães agradecidas. Mas, é importante frisar que não há apenas lembranças boas, porque às vezes carregamos o peso de alguma falha ou quando não conseguimos ajudar como desejaríamos. Marca nos dois sentidos”, conclui.

Edição 01 • Setembro de 2018

MERCADO DE TRABALHO /////////////////////////////////////////////////////

Mulheres no mercado da neurocirurgia: desafios e conquistas

Dra. Nelci zanon collange

Neurocirurgiã e membro da Comissão Mulheres Neurocirurgiãs da SBN.

Dra. Tatiana Peres Vilasboas

Neurocirurgiã oncológica e membro da Comissão Mulheres Neurocirurgiãs da SBN.

Uma história de perseverança, coragem e competência. Assim podemos resumir a trajetória das mulheres que desafiaram preconceitos e deixaram a sua marca na medicina.
Ainda que elas tenham esperado muito tempo – no Brasil, por exemplo, apenas em 1879 foi permitida a matrícula de mulheres nos cursos superiores – conquistaram reconhecimento e foram percussoras do movimento em direção a igualdade de gêneros.
Nos últimos anos, elas estão cada vez mais presentes na área médica, mas ainda existe um longo caminho a percorrer. Prova disso é que, desde 2009, o número de mulheres que entram na medicina no Brasil é maior que o de homens, mas a atuação feminina é bem menor na área de cirurgia – mais de 90% dos profissionais são homens, conforme pesquisa da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP).
A neurocirurgiã, que atende crianças há mais de 15 anos, Dra. Nelci Zanon Collange avalia que há um preconceito inconsciente, mas real. “Na cirurgia é um pouco mais evidente. Quando chega uma médica cirurgiã, desconhecida num centro cirúrgico novo, os atendentes perguntam a qual equipe você pertence ou quem é o chefe da equipe. Já um instrumentador homem, por exemplo, geralmente, é confundido com o médico”.
No entanto, ela ressalta que as barreiras, às vezes se iniciam já nos processos de recrutamento e seleção. “Conheço casos em que a candidata tirou nota máxima na prova escrita e tinha um bom currículo, mas zerou na entrevista. Outros selecionadores foram mais diretos e disseram ‘aqui mulher não entra’. Existem também outros comportamentos mais misóginos para que as colegas desistam, mas, felizmente, essas histórias pertencem ao passado”, conta a Dra. Nelci.
A neurocirurgiã oncológica Tatiana Vilasboas lembra das dificuldades enfrentadas no início da carreira. “Meu professor, chefe do serviço, durante minha entrevista para ingressar na residência, exprimiu abertamente sua opinião de que a neurocirurgia é uma área muito desgastante, sobretudo para mulheres”.
Ela reforça que tem dúvidas em relação ao espaço conquistado quando se fala em liderança. “Existem diversas mulheres extremamente competentes e que galgam postos de liderança, porém um pequeno número chega ao cargo máximo de chefia. Poucas delas são presidentes de sociedades neurocirúrgicas no mundo e gestoras de saúde”. E frisa também a necessidade de quebrar os estereótipos e incentivar a meritocracia. “Os homens ainda são a maioria nesse universo e por isso precisamos do apoio de todos para que os presidentes, os diretores e os gestores sejam eleitos a despeito do coleguismo e do apoio de classes”, diz a Dra. Tatiana.
Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) corroboram essa visão – a participação feminina vai caindo conforme aumenta o nível hierárquico. As mulheres representam 37% dos cargos de direção e gerência. No topo, nos comitês executivos de grandes empresas, elas são apenas 10% no Brasil. Além disso, relatório do Fórum Econômico Mundial afirma que a igualdade de gêneros só será possível em 2095 e que a disparidade, quando se trata de participação econômica e oportunidades para as mulheres, gira em torno de 60%. O Brasil está em 124º lugar, entre 142 países, no ranking de igualdade de salários.
O público feminino ganha, em média, 73,7% do salário recebido pelos homens, de acordo com a última pesquisa da PNAD (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios). Apesar de muitas mulheres ainda ganharem menos do que os homens, exercendo as mesmas funções, um grande espaço já foi conquistado, na visão da Dra. Nelci Zanon Collange. “A realidade hoje é bem diferente do passado e o tempo se encarregará de amenizar as arestas e fazer com que as qualidades individuais se sobreponham as indicações e que a meritocracia chegue na questão coletiva, independentemente da questão de gênero”, opina.

maternidade e neurocirurgia

Outro desafio para as mulheres é a maternidade, que segue acompanhada por casos de discriminação e preconceito quando o assunto é a carreira. Um estudo da empresa de pesquisa de mercado MindMiners aponta que quase metade das mulheres no Brasil já foram rejeitadas para uma vaga de emprego simplesmente por serem mães ou desejarem ter filhos. Entre os cenários apontados por elas, estão o desencorajamento na hora de marcar consultas médicas durante o horário de trabalho (28%), a sobrecarga de tarefas (26%) e os comentários desagradáveis relacionados à gestação (20%). Oito por cento chegou até a desfrutar menos da licença maternidade por medo de perder o emprego na volta.
Por outro lado, algumas companhias já acenam mudanças com programas dedicados às profissionais mães. E se multiplicam exemplos de mulheres de sucesso que conciliam maternidade e carreira. Para as mães da área da saúde, não é diferente. Apesar da rotina extenuante exigir um esforço ainda maior, elas mostram que é possível obter êxito na profissão sem descuidar dos filhos.
No segundo ano de residência, a neurocirurgiã Tatiana Vilasboas engravidou de seu primeiro filho. A gravidez não planejada fez com que ela tivesse que colocar um esforço extra para seguir com seus objetivos. “Não aconselho ninguém a planejar uma gravidez durante a residência. É muito desgastante, mas não é impossível. Com muita dedicação e esforço, ela pode ser trilhada com sucesso”.
A neurocirurgiã conta que o receio de um de seus chefes e de seus colegas era que ela não aguentasse a carga de trabalho e diminuísse o ritmo, mas estar grávida não reduziu em nada sua contribuição. “Cumpri todos os meus plantões incluindo a cobertura das férias dos colegas de residência. Consegui trabalhar até o último dia da gravidez. Fiquei afastada por 4 meses depois que o meu filho nasceu. Optei por continuar a residência e, por 4 anos, eu e meu esposo moramos em diferentes cidades. Eu e ele, com o auxílio de várias pessoas, cuidávamos do meu bebê”, lembra.

Edição 01 • Setembro de 2018

CARREIRA DE SUCESSO /////////////////////////////////////////////////////

“Para a jovem acadêmica que vislumbra na Neurocirurgia seu sonho, vá atrás.”

“Deu para perceber que gosto de desafios?”. Foi em tom descontraído que a neurocirurgiã
Denise Marques de Assis, de 53 anos, contou sua história de 30 anos de carreira.
Denise se formou em 1988 pela Universidade Federal de Minas Gerais e realizou sua residência de Neurocirurgia na Universidade de São Paulo – em Ribeirão Preto. Atualmente, possui dois empregos públicos. “Em um deles, na Polícia Militar, vou todos os dias, tenho um horário a cumprir mais rígido. Sou chefe da Clínica Neurológica, com uma carga horária de 25 horas semanais presenciais distribuídas entre ambulatório, enfermaria e cirurgia eletiva”, conta. Além disso, a médica também completa 24 horas de plantões semanais em 2 turnos de 12 horas no Hospital João XXIII, em Belo Horizonte – MG, e também atende em consultório, uma vez por semana. “Para os finais de semana, rodízio com os colegas!”, completa a neurocirurgiã.
Mesmo com uma rotina exaustiva, a Dra. Denise parece ser incansável e quando perguntada sobre sua vida pessoal, a mesma afirma: “Consigo viajar nas férias, jantar fora e fazer coisas que pessoas normais fazem (risos)”. A neurocirurgiã é casada, tem um filho e também cuida de seus pais, que já são idosos. “Ao longo do tempo, a vida nos ensina a dosar e doar nosso tempo”, diz.

Dra. Denise Marques de assis

Fiz todos os estágios possíveis e disponíveis para acadêmicos. Era muito curiosa. Nunca vou esquecer da minha primeira neurocirurgia. Desse momento em diante, fiquei ainda mais fascinada pela especialidade.

Trajetória

“Piolho de hospital”, é assim que a Dra. Denise se denomina quando era acadêmica. “Fiz todos os estágios possíveis e disponíveis para acadêmicos. Era muito curiosa. Nunca vou esquecer da minha primeira neurocirurgia. Operamos uma fratura com afundamento craniano em um lactente de seis meses. Desse momento em diante, fiquei ainda mais fascinada pela especialidade”, confessa.
Outra história que a médica se recorda é quando um neurocirurgião estava precisando de um acadêmico auxiliar e ela prontamente se ofereceu a ajudar. “Ele me perguntou em qual cirurgia eu já havia auxiliado e mais que depressa respondi: afundamento! Ótimo, é exatamente um afundamento agora. Mas… ele não me disse que era um fronto-basal aberto de um paciente chocado”, relembra.
Quando terminou a residência, a neurocirurgiã tinha em mente seguir carreira acadêmica. Porém, acabou se envolvendo com a carreira militar. “De certa forma, desenvolvi a docência lá, criando disciplinas e rotinas de treinamento de atendimento a vítimas em atividades militares. A Medicina de Urgência e Trauma aliada à vida militar também é emocionante”, revela.

Dificuldades

Há muitos percalços que o sexo feminino deve enfrentar para realizar seu sonho. “A mulher é muito cobrada pela sociedade a estar muito presente em casa. Não necessariamente como dona de casa, mas à frente de exigências familiares maiores, principalmente, filhos. E a medicina nos exige uma dedicação em que é necessário dosar o tempo entre estudo, pacientes e família”, explica Dra. Denise.
Quando começou a Neurocirurgia há 30 anos, a especialista lembra que eram poucas mulheres e todas eram vistas como ousadas. “O meio era muito masculino e os colegas ficavam um pouco incomodados com nossa desenvoltura. Tínhamos que nos desdobrar, mostrar que podíamos fazer tanto ou melhor que eles, sempre trabalhando mais, pois não existia um meio de camaradagem”, ressalta.
Como um conselho para as mais jovens, orienta: “Vá atrás. Tente. Não desista sem conhecer. De um modo geral, quem está de fora só vê as dificuldades. Veja-as como oportunidades!”.

Sociedade Brasileira de Neurocirurgia
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Telefone: (11) 3051-6075 e-mail: sbn@sbn.com.br
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