Special Publication of the Brazilian Society of Neurosurgery - SBN

Edição 01 • Setembro de 2018

A MEDICINA É DELAS /////////////////////////////////////////////////////

Cargos de liderança? Sim, elas podem!

Sob pressão. Foi assim o início da carreira da neurocirurgiã Audrey Beatriz Santos Araújo, que mora em Belo Horizonte, com seu marido e dois filhos. Aos 23 anos, quando se formou em medicina e chegara a hora de escolher a especialidade, a Dra. Audrey já tinha descoberto a sua paixão – o cérebro e suas complexidades, mas quase desistiu da carreira ao ser confrontada por alguns colegas. “Naquela época, as provas de admissão para residência médica continham uma entrevista como parte da pontuação.
Em um serviço em que fiz prova, na entrevista me disseram que neurocirurgia era coisa de homem, que lá não aceitavam mulheres, pois as cirurgias eram longas e desgastantes e que neurologia clínica combinava mais com o gênero feminino”, lembra.
A médica então partiu para o Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Minas Gerais (HC-UFMG), onde havia duas vagas de R1 e, por coincidência do destino, além da dela, outra mulher foi aprovada. “Como fui
a segunda a fazer a inscrição, o chefe da COREME – Comissão Nacional de Residência Médica da época sugeriu que eu fosse para casa pensar antes de me inscrever: tinham medo que duas mulheres juntas se jogassem ao chão e puxassem os cabelos uma da outra! Retornei no dia seguinte e nunca mais me afastei da neurocirurgia”, conta.

Dra. Audrey Beatriz Santos Araújo

Neurocirurgiã e coordenadora da neurocirurgia do Hospital Metropolitano Odilon Behrens.

Facilidade de comunicação e respeito com os colegas também são pontos importantes para conseguir se manter num cargo de liderança, em qualquer situação.

Hoje, com 49 anos, a médica ocupa o cargo de coordenação da neurocirurgia do Hospital Metropolitano Odilon Behrens. “É claro que necessitei abdicar de muitos eventos sociais e familiares, de horas de sono e tive muitas noites de trabalho árduo. Mas, com apoio familiar, com meus pais sempre me “empurrando”, meu marido (não médico) tão presente que alguns colegas de turma achavam que ele tinha se formado conosco e ainda dois filhos que se acostumaram com minha ausência e horas ao telefone e no whatsapp, consegui me manter sempre resistente e proativa”, resume.
O preconceito de gênero percebido na época, porém, ainda é algo inerente aos dias atuais, acredita. Mesmo depois de anos de carreira, ela enfrenta situações delicadas de machismo que, muitas vezes, vem como piadas. “Certa vez, durante um jantar do qual participei com um grupo de residentes e preceptores, um neurocirurgião perguntou-me o que eu faria se o aneurisma rompesse. Ele mesmo respondeu à pergunta, em tom de chacota: grita e puxa o cabelo?”, afirma.
Durante a residência, a neurocirurgiã provou a todos a sua capacidade e, aos poucos, foi conquistando o respeito e admiração dos colegas e chefes. Fez mestrado e doutorado no HC-UFMG.
Como resultado, a especialista acredita que a posição de coordenação fluiu naturalmente, pois contou com pessoas que souberam reconhecer e valorizar o seu trabalho. “Com o passar dos anos, conseguimos aumentar o movimento cirúrgico do hospital e melhorar a assistência aos pacientes, além de adquirir instrumental e materiais específicos para neurocirurgia. Então, quando percebemos, tínhamos um serviço bem equipado, em franco crescimento e realizando atendimento neurocirúrgico de qualidade. A introdução do programa de residência veio completar esta evolução natural. Não sou boa com marketing e propaganda, mas acho que se a pessoa se empenha, consegue receber o respeito dos colegas”, afirma.
Para construir a carreira sólida e de sucesso, a médica afirma que resiliência e paciência são fatores essenciais. “Facilidade de comunicação e respeito com os colegas também são pontos importantes para conseguir se manter num cargo de liderança, em qualquer situação”, comenta.
Em um serviço público, como o que a Dra. Audrey trabalha e que realiza atendimentos 100% pelo SUS, a tranquilidade deve ser ainda maior, uma vez que as dificuldades naturais da neurocirurgia se misturam com as incongruências da administração pública. “Reinventam a roda, tudo que o gestor anterior fez não tem sentido, os objetivos e metas modificam. Sempre tem alguém para questionar suas decisões. Então não é muito fácil identificar mulheres que se submetam a tanta inconstância e tenham vontade de se manter no cargo”, finaliza.

Realidade no Acre

A 2.135 km da capital do País, a neurocirurgiã Dra. Tammy Sabóia de Oliveira, de 31 anos, se formou em Medicina na Universidade Federal do Acre e fez Residência no Hospital da Restauração em Recife.
A Dra. Tammy escolheu a neurocirurgia logo após de entrar na faculdade. “Eu entrei na medicina para fazer alguma área cirúrgica e não sabia muito bem o que era. Quando eu estudei neuroanatomia, fiquei realmente muito fascinada e gostei muito”, conta.
E nada fez com que a doutora mudasse de ideia. “Não tive dificuldades para seguir com a carreira. A única coisa que posso afirmar é que esta área é muito pesada e o treinamento é muito intenso, pois são muitas horas de cirurgia, por exemplo. Mas acredito que seja assim em toda área cirúrgica e não apenas na neurocirurgia”, explica.
Há muitas diferenças do Acre para os outros estados do Brasil, mas a médica acredita que isso já tenha ficado para trás. “Quando fiz faculdade, eu via que a neurocirurgia daqui era muito defasada. Hoje não acredito que haja barreiras para atuação da especialidade”, diz.
Logo quando a Dra. Tammy terminou a faculdade, há cerca de 7 anos, o Instituto de Neurocirurgia e Neurologia da Amazônia Ocidental (INAO), assumiu a neurocirurgia do Acre. O INAO conta com um bom nível de profissionais e possui equipamentos de ponta como o neuronavegador cirúrgico.

Dra. Tammy Sabóia de Oliveira

Neurocirurgiã no Acre.

Atuação

A representatividade feminina é destaque no Acre. “No estado, só temos três neurocirurgiões que efetivamente moram aqui e trabalham no INAO e destes três, duas são mulheres”, diz.
Felizmente, a Dra. nunca sofreu preconceito por ser mulher e ama o que faz. “Considero que faço por vocação e apesar de tudo que a medicina acaba cobrando das nossas vidas, agradeço a Deus todo dia por ter me colocado nesse caminho”, afirma.
Quando perguntada sobre uma história marcante de sua carreira, a médica responde: “Não tem uma, são várias. Sempre me emociono com mães agradecidas. Mas, é importante frisar que não há apenas lembranças boas, porque às vezes carregamos o peso de alguma falha ou quando não conseguimos ajudar como desejaríamos. Marca nos dois sentidos”, conclui.

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