Special Publication of the Brazilian Society of Neurosurgery - SBN

Edição 01 • Setembro de 2018

Maternidade e carreira /////////////////////////////////////////////////////

Maternidade e carreira

É possível ser uma profissional bem sucedida sem abrir mão do sonho de ser mãe? A neurocirurgiã Diana de Santana garante que sim!
A decisão de ser mãe sem deixar de lado a profissão não é fácil. Além da rotina intensa, muitas mulheres enfrentam discriminação e preconceito no mercado de trabalho. Mas, apesar das dificuldades, elas garantem que é possível. Algumas afirmam ainda que o desafio é um impulso a mais no trabalho.

Dra. Diana de Santana

Neurocirurgiã e membro da Comissão Mulheres Neurocirurgiãs da SBN. Será mãe de gêmeos.

Uma pesquisa publicada pela revista Forbes, aponta, inclusive, que as mulheres que são mães aumentam o seu grau de produtividade se comparado aos seus pares sem filhos.
A neurocirurgiã Dra. Diana de Santana confessa que ponderou muito sobre a sua decisão de ser mãe. Surpreendida com a notícia que está grávida de gêmeos, ela ressalta que as mulheres não devem ter medo diante da alegria de ter filhos e constituir uma família.
Confira a entrevista:
[Revista Mulher Neurocirurgiã] São seus primeiros filhos? Nos conte um pouco sobre seu casamento e quando achou que era o momento de engravidar?[Dra. Diana] Sim, estes são meus primeiros filhos. Comecei o meu relacionamento no final da residência de neurocirurgia e estamos juntos há 6 anos. Nunca sabemos ao certo qual é o melhor momento para engravidar. Será que é melhor esperar estarmos estáveis profissionalmente? E se essa estabilidade demorar demais? Vale a pena o risco de ter filhos em idade avançada? Qual o desejo do meu parceiro? No meu caso eu ponderei muito. Sempre foi um desejo meu ser mãe e conto com muito apoio tanto do meu parceiro quanto da minha família e isso foi fundamental na minha escolha para planejar a minha gravidez.
Durante as provas de residência ouvi relatos desanimadores sobre as entrevistas. Felizmente, as minhas se sucederam sem reveses. Fui aprovada em alguns serviços e optei por seguir no IAMSPE.
No IAMSPE as dúvidas se dissiparam. Passei a conviver com uma equipe que me incentivou no meu crescimento profissional e pessoal e pelos quais nutro grande admiração. Os primeiros anos requereram paciência e maior esforço físico, nenhuma barreira intransponível.
Nos anos subsequentes aprendi a operar, conclui mestrado e conheci diferentes serviços em outros países.
O paradigma e a cultura têm se modificado, dificuldades existem, mas o que se espera de um residente de neurocirurgia é dedicação e disposição independente do gênero.
Nesta fase final da residência, sigo com a tranquilidade de ter escolhido a especialidade correta e com a certeza de que nada, absolutamente nada, resiste ao trabalho bem feito.
[RMN] Quantos meses de gravidez e quais os nomes dos bebês?[Dra] Estou no momento com 7 meses de gravidez e ainda não decidimos os nomes dos bebês. Como o pai é inglês e a família dele mora na Inglaterra estamos tentando encontrar nomes que sejam de fácil pronúncia nos dois países. Achei que ia ser mais fácil a escolha, mas não é não! (Risos).
[RMN] Há ônus e bônus nesse período gestacional para a carreira?[Dra] Com certeza. Grande parte das mulheres médicas são profissionais liberais, sem vínculo empregatício fixo. Os tipos de contrato mais comuns são como pessoa jurídica, portanto não temos nenhuma garantia salarial durante o período de afastamento para licença maternidade. Isso gera muita insegurança pois os nossos empregadores podem nos dispensar nesse momento tão crucial nas nossas vidas. Quando temos consultório próprio um outro dilema são os pacientes que acompanhamos. É sempre importante ter um outro colega como referência para que seus pacientes tenham a quem recorrer no período da sua ausência. O bônus é a alegria de ter filhos e constituir uma família. É algo muito especial!
[RMN] Como são vistas as mulheres grávidas nesse mercado de trabalho?[Dra] Já ouvi muitos relatos de que mulheres grávidas são um problema para o serviço e muitas equipes não contratam mulheres justamente pelo fato de que em algum momento da vida elas poderão sair para cumprir o período de licença maternidade. Isso infelizmente é uma realidade no nosso meio. Durante uma das entrevistas que fiz para prestar a residência médica em uma determinada instituição, me questionaram sobre o desejo de ser mãe, engravidar e constituir família. Isso jamais foi questionado para algum outro colega do sexo masculino e jamais deveria ser um critério para aprovação ou não em uma residência médica.
Já agora durante a minha gestação não tive nenhum problema nem nenhum empecilho no meu desempenho e atuação profissional. Continuei e continuo na minha rotina, fazendo as minhas cirurgias e todas as minhas atividades fora do trabalho. Os pacientes confiam muito quando o profissional é sincero, aberto e há um vínculo pessoal, portanto, não tive nenhum questionamento ou insegurança por parte deles.
Não acho que essa deve ser a realidade de todas as mulheres neurocirurgiãs, ainda há muito preconceito em relação a isso. Sempre ouço outros profissionais questionando se você está apta ao trabalho, se dá conta de fazer cirurgias, mas acredito que cada mulher deve estabelecer os seus limites, sempre em concordância com o seu obstetra, visando o seu bem-estar e a saúde dos bebês. Este limite deve ser pessoal e não imposto pelo que as outras pessoas pensam ou imaginam.
[RMN] Qual sua rotina atual e o que deve mudar com o bebê?[Dra] Atualmente, tenho um vínculo público e outros vínculos privados, além de consultório, doutorado e vínculos de representação em entidades médicas. Com a vinda dos bebês devo cumprir o meu período de licença maternidade e obviamente a minha renda pessoal deve diminuir, portanto conto com a ajuda do meu parceiro, da minha família e das minhas economias para poder passar esse período bem. Passado esse período inicial pretendo continuar com minhas atividades de sempre.
Meu esposo vem de uma criação muito diferente da maioria das pessoas do Brasil onde as mulheres são figuras de liderança nacional, como a rainha e a primeira ministra, e as responsabilidades do cuidado da casa e da família são divididas igualitariamente entre os pais. Acredito que o cuidado dos filhos não é exclusividade da mãe e sim do casal! Todas as tarefas podem e devem ser divididas entre os pais, pois sempre fui criada desta forma e esses são os valores que gostaria de passar para os meus filhos.
[RMN] Qual a dica para as neurocirurgiãs que querem ser mães?[Dra] Não tenham medo se esse é o seu desejo pessoal. Não é fácil, mas se planeje, conte com o apoio da sua família e do(a) seu(sua) parceiro(a) e aceite ajuda. Existe uma rede de mulheres que cresce a cada dia e acredite que a sua luta é a luta de todas e com certeza, juntas somos mais fortes!

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