Special Publication of the Brazilian Society of Neurosurgery - SBN

Edição 01 • Setembro de 2018

MERCADO DE TRABALHO /////////////////////////////////////////////////////

Mulheres no mercado da neurocirurgia: desafios e conquistas

Dra. Nelci zanon collange

Neurocirurgiã e membro da Comissão Mulheres Neurocirurgiãs da SBN.

Dra. Tatiana Peres Vilasboas

Neurocirurgiã oncológica e membro da Comissão Mulheres Neurocirurgiãs da SBN.

Uma história de perseverança, coragem e competência. Assim podemos resumir a trajetória das mulheres que desafiaram preconceitos e deixaram a sua marca na medicina.
Ainda que elas tenham esperado muito tempo – no Brasil, por exemplo, apenas em 1879 foi permitida a matrícula de mulheres nos cursos superiores – conquistaram reconhecimento e foram percussoras do movimento em direção a igualdade de gêneros.
Nos últimos anos, elas estão cada vez mais presentes na área médica, mas ainda existe um longo caminho a percorrer. Prova disso é que, desde 2009, o número de mulheres que entram na medicina no Brasil é maior que o de homens, mas a atuação feminina é bem menor na área de cirurgia – mais de 90% dos profissionais são homens, conforme pesquisa da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP).
A neurocirurgiã, que atende crianças há mais de 15 anos, Dra. Nelci Zanon Collange avalia que há um preconceito inconsciente, mas real. “Na cirurgia é um pouco mais evidente. Quando chega uma médica cirurgiã, desconhecida num centro cirúrgico novo, os atendentes perguntam a qual equipe você pertence ou quem é o chefe da equipe. Já um instrumentador homem, por exemplo, geralmente, é confundido com o médico”.
No entanto, ela ressalta que as barreiras, às vezes se iniciam já nos processos de recrutamento e seleção. “Conheço casos em que a candidata tirou nota máxima na prova escrita e tinha um bom currículo, mas zerou na entrevista. Outros selecionadores foram mais diretos e disseram ‘aqui mulher não entra’. Existem também outros comportamentos mais misóginos para que as colegas desistam, mas, felizmente, essas histórias pertencem ao passado”, conta a Dra. Nelci.
A neurocirurgiã oncológica Tatiana Vilasboas lembra das dificuldades enfrentadas no início da carreira. “Meu professor, chefe do serviço, durante minha entrevista para ingressar na residência, exprimiu abertamente sua opinião de que a neurocirurgia é uma área muito desgastante, sobretudo para mulheres”.
Ela reforça que tem dúvidas em relação ao espaço conquistado quando se fala em liderança. “Existem diversas mulheres extremamente competentes e que galgam postos de liderança, porém um pequeno número chega ao cargo máximo de chefia. Poucas delas são presidentes de sociedades neurocirúrgicas no mundo e gestoras de saúde”. E frisa também a necessidade de quebrar os estereótipos e incentivar a meritocracia. “Os homens ainda são a maioria nesse universo e por isso precisamos do apoio de todos para que os presidentes, os diretores e os gestores sejam eleitos a despeito do coleguismo e do apoio de classes”, diz a Dra. Tatiana.
Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) corroboram essa visão – a participação feminina vai caindo conforme aumenta o nível hierárquico. As mulheres representam 37% dos cargos de direção e gerência. No topo, nos comitês executivos de grandes empresas, elas são apenas 10% no Brasil. Além disso, relatório do Fórum Econômico Mundial afirma que a igualdade de gêneros só será possível em 2095 e que a disparidade, quando se trata de participação econômica e oportunidades para as mulheres, gira em torno de 60%. O Brasil está em 124º lugar, entre 142 países, no ranking de igualdade de salários.
O público feminino ganha, em média, 73,7% do salário recebido pelos homens, de acordo com a última pesquisa da PNAD (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios). Apesar de muitas mulheres ainda ganharem menos do que os homens, exercendo as mesmas funções, um grande espaço já foi conquistado, na visão da Dra. Nelci Zanon Collange. “A realidade hoje é bem diferente do passado e o tempo se encarregará de amenizar as arestas e fazer com que as qualidades individuais se sobreponham as indicações e que a meritocracia chegue na questão coletiva, independentemente da questão de gênero”, opina.

maternidade e neurocirurgia

Outro desafio para as mulheres é a maternidade, que segue acompanhada por casos de discriminação e preconceito quando o assunto é a carreira. Um estudo da empresa de pesquisa de mercado MindMiners aponta que quase metade das mulheres no Brasil já foram rejeitadas para uma vaga de emprego simplesmente por serem mães ou desejarem ter filhos. Entre os cenários apontados por elas, estão o desencorajamento na hora de marcar consultas médicas durante o horário de trabalho (28%), a sobrecarga de tarefas (26%) e os comentários desagradáveis relacionados à gestação (20%). Oito por cento chegou até a desfrutar menos da licença maternidade por medo de perder o emprego na volta.
Por outro lado, algumas companhias já acenam mudanças com programas dedicados às profissionais mães. E se multiplicam exemplos de mulheres de sucesso que conciliam maternidade e carreira. Para as mães da área da saúde, não é diferente. Apesar da rotina extenuante exigir um esforço ainda maior, elas mostram que é possível obter êxito na profissão sem descuidar dos filhos.
No segundo ano de residência, a neurocirurgiã Tatiana Vilasboas engravidou de seu primeiro filho. A gravidez não planejada fez com que ela tivesse que colocar um esforço extra para seguir com seus objetivos. “Não aconselho ninguém a planejar uma gravidez durante a residência. É muito desgastante, mas não é impossível. Com muita dedicação e esforço, ela pode ser trilhada com sucesso”.
A neurocirurgiã conta que o receio de um de seus chefes e de seus colegas era que ela não aguentasse a carga de trabalho e diminuísse o ritmo, mas estar grávida não reduziu em nada sua contribuição. “Cumpri todos os meus plantões incluindo a cobertura das férias dos colegas de residência. Consegui trabalhar até o último dia da gravidez. Fiquei afastada por 4 meses depois que o meu filho nasceu. Optei por continuar a residência e, por 4 anos, eu e meu esposo moramos em diferentes cidades. Eu e ele, com o auxílio de várias pessoas, cuidávamos do meu bebê”, lembra.

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