Special Publication of the Brazilian Society of Neurosurgery - SBN

Edição 01 • Setembro de 2018

ENTREVISTA/ESPECIAL /////////////////////////////////////////////////////

Neurocirurgiã e mãe

Em qualquer carreira, uma das questões que mais percorrem a cabeça das mulheres que anseiam ter filhos é como alcançar o equilíbrio entre a vida pessoal e a profissional. Elas não querem abdicar de sua profissão e tão pouco dos momentos em família, principalmente suas obrigações com os filhos. A neurocirurgiã Alessandra Gorgulho é direta na resposta à esta dúvida: “Não há equilíbrio. Quem descobrir, por favor me passa a fórmula”, afirma com muitos risos.

Aos 45 anos, a especialista junto com o esposo, também Neurocirurgião, fundaram o Centro de Neurociência do HCor – Hospital do Coração (HCor Neuro), quando retornaram ao Brasil em 2012.  Têm um filho de 11 anos, a quem ela atribui a maior mudança de sua vida. Após a faculdade de medicina em 1996, a Dra. Alessandra terminou a residência em Neurocirurgia na UNIFESP (Universidade Federal de São Paulo) em 2002  e a especialização em Neurocirurgia da Dor na Faculdade de Medicina da USP (Universidade de São Paulo). Interessou-se por uma área em Neurocirurgia pouco desenvolvida à época no Brasil e buscou diferenciar-se em duas sub-especializações nos Estados Unidos. Tornou-se Professora da Universidade da Califórnia em Los Angeles. Lá conheceu o seu marido. o neurocirurgião Dr. Antonio De Salles. “Meu marido  e eu temos a mesma subespecialidade, como se já não bastasse sermos os dois neurocirurgiões! Isso tem sido uma grande revelação profissional para ambos, pois dividimos o mesmo entusiasmo pelos últimos desenvolvimentos científicos e pela pesquisa, além de nos completarmos nos cuidados dos pacientes. Somos dois cérebros para ajudar cada uma das pessoas que confiam em nosso trabalho no momento mais difícil de suas vidas, quando a saúde falha”, remarca.

Dra. ALESSANDRA AUGUSTA GORGULHO

Neurocirurgiã no Hospital do Coração (HCor) em São Paulo e Presidente da

Dra. MARISE AUGUSTO FERNANDES AUDI

Neurocirurgiã e Tesoureira da SBN.

Dois anos após o casamento, o casal resolveu ter um filho. “Senti que era o “timing”, pois eu já havia atingido os objetivos que tinha traçado para meu treino profissional, portanto resolvi priorizar a família. Minha mãe nos ajudou muito, pois ela se mudou do Brasil para os Estados Unidos para ajudar com o bebê. Fui muito afortunada nesse sentido, ninguém melhor que a própria mãe para cuidar de meu filho quando tenho uma profissão que demanda tanto. O difícil em se acoplar ambas as funções sendo Neurocirurgiã é que a especialidade não acomoda dedicação parcial. Ou se está no jogo ou não. Dessa forma, é importante definir que “tipo de jogo jogar”, ou seja, qual será o foco do exercício neurocirúrgico na sua carreira. A mulher neurocirurgiã e mãe, em minha opinião, tem de encontrar um nicho e focar, com dedicação total. Nesse aspecto, o homem acaba podendo ser mais “ambicioso” nos seus objetivos dentro da profissão pois sofre menos pressão dos aspectos familiares, embora claro que muitos se envolvam e participem. O Antônio é muito presente na educação, formação e recreação de nosso filho. Mas o papel feminino é diferente e eu mesma acredito nesse formato de distribuição de afazeres.  Novamente é uma sorte grande que trabalhamos tão juntos pois conto com o suporte e o entendimento da família toda, inclusive de minha mãe, na “distribuição” de tarefas. Contudo sempre acho que estou fazendo “menos” seja ora num aspecto ora em outro, sempre busco melhorar. Dá uma satisfação enorme ser tão ocupada, mesmo ainda não tendo encontrado o equilíbrio como me perguntou há pouco. Todavia não me bastaria uma vida mais “pacata””, conta.

Após o nascimento do seu filho, a neurocirurgiã continuou a exercer seu trabalho com toda a determinação de sempre, mas percebeu que outros assuntos se tornaram prioridades em sua vida. Para ela, o bem-estar de seu filho se tornou tão importante quanto seus objetivos profissionais. “Eu amo o que faço e me dedico a todos os pacientes, mas passei a não ter mais apenas como meta o sucesso profissional e, sim, o sucesso como mãe”, explica.

Foi por causa do pequeno Lucas que a Dra. Alessandra voltou ao Brasil.  “O Estados Unidos da América é um país muito solitário. Apesar de haver muitas possibilidades de estudo e crescimento, gostaria de criar meu filho perto dos nossos familiares. Com certeza, ele acelerou a nossa vinda ao Brasil”, afirmou.

A especialista afirma que a rotina é corrida e, que a sensação de culpa por não poder acompanhar o filho em muitos momentos é quase que diária. “Mas eu acredito em educar pelo exemplo. Faço os momentos que tenho com ele prazerosos. Procuro dar qualidade ao nosso contato. Há mães que passam quase todas as horas do dia com seus filhos e não acompanham seu desenvolvimento acadêmico nem tem um diálogo tão aberto com seus filhos como eu tenho com o meu.”, ressalta.

Educar pelo exemplo também é uma das frases da neurocirurgiã e membro da Diretoria e do Conselho Deliberativo da SBN, Marise Augusto Fernandes Audi, mãe de três crianças. A especialista enfrentou um desafio: teve seu primeiro filho ainda durante a residência em neurocirurgia. “Entrei na residência no início de 1985, aos 23 anos, quando passaria 1 ano na neurologia clínica e 3, exclusivamente na neurocirurgia. Namorava há 4 anos com um engenheiro da Petrobrás e decidimos nos casar. Em março de 1985, após 22 dias de preparativos, engravidei 3 meses após”, lembra.

O casal morava no litoral de São Paulo, na cidade de Santos, e tinha uma rotina bastante movimentada. Às 5h30 da manhã, a Dra. Marise deixava sua casa e ia à São Paulo para trabalhar, retornava apenas por volta das 22h. “Trabalhei durante todo o tempo, até o último dia, sendo que operei durante o dia e entrei em trabalho de parto de madrugada. Fiquei afastada pelo mínimo de tempo, sem juntar as férias, para não prejudicar minha formação”, conta.

No caso da Dra. Marise foi a mãe que também a ajudou com os cuidados com o bebê. A especialista também sentia pela falta de tempo com a filha. “Lembro que, diariamente, minha mãe me dizia: que pena, hoje ela começou a fazer isto ou aquilo e você perdeu. Foi muito difícil, mas superei”, afirma.

No término da residência de neurocirurgia, que durou quatro anos, o casal teve uma segunda menina. “Trabalhei arduamente durante toda a gestação e também, só parei no último dia. A bebê estava com 18 dias, quando, por insistência minha, assumi o plantão à distância e passei visita nos pacientes internados no final de semana que estava pré-determinado para mim, para não prejudicar a equipe. Levava a bebê para a escolinha, com inúmeras mamadeiras de leite materno congelado, ordenhado durante a noite. Voltei a trabalhar em 2 meses e 1 dia e sempre que possível, passava na escolinha para amamentar o bebê”, conta.

A terceira filha do casal chegou quatro anos depois, quando a Dra. Marise conseguiu acertar um pouco mais sua rotina. Fora dos plantões, ela conseguia passar as noites e os finais de semana com as meninas e o marido.

Quando o equilíbrio parecia ter chegado à carreira da neurocirurgiã, a vida lhe impôs outros desafios. “Em 1994, meu pai faleceu repentinamente e eu tive que assumir as empresas da família por meio período. Assim sendo, trabalhava como médica pela manhã, alternando dias cirúrgicos com dias de consultas e à tarde era empresária”, lembra.

Cinco anos depois, sua mãe faleceu e dois anos após este luto, a neurocirurgiã foi acometida por um câncer de mama. “Nunca parei de trabalhar, exceto nos 3 dias subsequentes às quimioterapias, quando passava muito mal. Consegui trabalhar normalmente durante as radioterapias. Fiquei careca, sem cílios ou sobrancelhas, por um ano. Foi horrível”, lembra

Ao se recuperar da doença e se separar do marido, por excesso de trabalho, a especialista percebeu que precisava trabalhar menos e dedicar mais tempo a ela. Portanto reduziu sua carga horária. “Em 2006 me divorciei e em 2007, casei novamente com o mesmo marido. Durante o divórcio, ele ficou morando com as crianças, e na guarda compartilhada, elas passavam 2 dias da semana comigo e finais de semana alternados. Após casar novamente, comecei a ter mais tempo para mim, iniciei atividade física em academia, comecei a cuidar melhor da saúde, da alimentação e até fiquei mais vaidosa”, explica.

Para a neurocirurgiã, é impossível não perder nada da vida pessoal nem da profissional quando se opta em dedicar-se às duas, mas é possível ser feliz em ambas as áreas. “Hoje estou com 57 anos, casada e tenho o maior orgulho da família e das nossas conquistas. Para as que querem constituir família: não descuidem dos maridos. Redobrem os cuidados e atenção a eles. Nem todos suportam esse ritmo e a ausência da mulher em casa, por tão longos períodos ”, concluí.

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