Special Publication of the Brazilian Society of Neurosurgery - SBN

Edição 01 • Setembro de 2018

Giro Pelo mundo /////////////////////////////////////////////////////

Os desafios das mulheres neurocirurgiãs em quatro continentes

O amor é mesmo um sentimento universal. A paixão pela complexidade do cérebro e suas especificidades é o ponto em comum entre as neurocirurgiãs do mundo, que optaram em transpor todos os obstáculos que a realidade impunha para ajudar as pessoas por meio da medicina.
Se no Brasil, as mulheres que escolhem a neurocirurgia como profissão enfrentam descréditos em algumas situações, em diversos países ao redor do mundo elas passam por circunstâncias parecidas ou até piores. Em comum, todas as neurocirurgiãs mostram que é possível vencer as convenções sociais e, assim, escrever suas próprias histórias.
Acompanhe a realidade da neurocirurgia em alguns países:

PAQUISTÃO E ARABIA SAUDITA

No continente asiático e com pouco mais de 190 milhões de habitantes, está o Paquistão que se tornou um país independente apenas em 1947, ao deixar de ser colônia britânica. O país não é considerado um local pacífico porque, além de conflitos internos, protagonizou guerras históricas com grandes potências da economia mundial e se mostrou altamente militarizado e portador de armas nucleares.
No mesmo continente, está a Arábia Saudita com cerca de 32 milhões de habitantes. O país é um dos maiores produtores de petróleo do mundo e foi formado em 1932, após a unificação de alguns territórios. Graças ao petróleo, o país estabeleceu uma relação de amizade com as grandes potências internacionais.
Em ambos os países, a maior parte da população é mulçumana, mas a divisão xiita e sunita entre eles é motivo de conflitos religiosos. A política dos dois locais é bastante rígida para as mulheres que, de maneira geral, não têm os mesmos direitos que os homens. E a prática da medicina, tanto no Paquistão quanto na Arábia Saudita, não é uma ciência que está acima da fé. A religião é a mais forte das crenças.
Na história de luta e conquistas dos dois países, estão duas mulheres – Dra. Aneela Darbar (Paquistão) e Dra. Aisha Alhajjaj (Arábia Saudita) que resolveram desafiar a realidade e ultrapassar os obstáculos das leis sociais e governamentais por um sonho – de ser neurocirurgiãs.
A caminhada em busca de realizar sonhos e obter tanto a satisfação pessoal quanto profissional não foi fácil para nenhuma destas mulheres, mas elas relembram suas histórias com muito entusiasmo.
A Dra. Aisha, por exemplo, foi a primeira mulher neurocirurgiã da Arábia Saudita e disse ter escolhido a medicina com apenas 3 anos de idade, a paixão pela especialização surgiu no primeiro contato com a disciplina. “A primeira dificuldade que enfrentei foi que a neurocirurgia por si só é um campo desafiador. Depois, a de ter sido colocada em meus ombros, a responsabilidade de provar que as mulheres podem fazer essa especialidade”, lembra.
A Dra. Aneela, por sua vez, que se tornou uma das dez neurocirurgiãs no Paquistão – há 150 especialistas do sexo masculino em neurocirurgia – também lembra que a escolha da profissão surgiu na infância. “Quando minha avó sofreu um derrame senti que eu deveria me tornar uma neurocirurgiã. Desde o episódio, fui atraída pelas complexidades da mente e do cérebro e sempre quis aprender e explorar sobre anatomia e diferentes funções deste sistema”, afirmou.
Para a médica, seguir o sonho não foi uma tarefa fácil, uma vez que a profissão por si só tem uma linha muito tênue entre a admiração e a rejeição das pessoas. “A neurocirurgia é de longe uma das ocupações mais desgastantes do ponto de vista emocional e físico. O pêndulo oscila para nós diariamente, passamos de deuses a nada em questão de minutos. Nós não temos espaço para vacilar”, afirma.
Escolher medicina, no entanto, uma carreira em que erros são pouco aceitos, não era o maior dos obstáculos para as médicas, ser mulher, sim. “Numa sociedade patriarcal como o Paquistão, as mulheres são frequentemente tratadas como cidadãos de segunda classe. Portanto, aceitar uma mulher para operar na posse mais valiosa de seu corpo, ou seja, o cérebro não é fácil. Os pacientes sempre procuram um homem mais velho e experiente para ser seu neurocirurgião”, comenta a Dra. Aneela.
A Dra. Aisha também sentiu a mesma dificuldade. “Durante minha carreira, a maior dificuldade que enfrentei, sem dúvida, foi o meu espaço dentro de um ambiente muito masculino e competitivo. Entender a política e sobreviver”, lembra.
A confiança no trabalho das especialistas foi conquistada aos poucos, com a indicação de um e de outros que foram atendidos pelas médicas. Atualmente, as neurocirurgiãs têm uma rotina bastante exaustiva e carregam a responsabilidade de motivar e apoiar todas as estudantes de medicina que querem seguir a neurocirurgia como uma opção de carreira.

Argélia, Estados Unidos e França

A diferença proporcional entre homens e mulheres neurocirurgiões na Argélia, Estados Unidos e França é menor do que nos países asiáticos. As mulheres que optam pela especialidade enfrentam alguns descréditos por determinadas pessoas, mas nada comparado aos desafios dos países islâmicos. Na Argélia, por exemplo, há 340 neurocirurgiões certificados, sendo 85 (25%) deles mulheres, o maior percentual do mundo. A Dra. Bakhti Souad é membro da Sociedade Argelina de Neurocirurgia e presidente do Comitê Feminino da WFNS – World Federation of Neurosurgical Societies e afirma que no seu país, as dificuldades de mulheres que optam pela especialidade são as mesmas dos homens.
“A principal desvantagem para os neurocirurgiões argelinos no meu país é que alguns deles não confiam em si mesmos e nas tradições”, afirma.
A francesa Dra. Ana Paula Narata também compartilha da mesma opinião da Dra. Bakhti. “É uma especialidade muito masculina em qualquer país, mas não reservada aos homens. Nós podemos ter nosso espaço e mostrar nosso valor”, ressalta.
Para a doutora americana Kathryn Ko, no entanto, a diferença do número de mulheres e homens na especialidade foi um desafio na sua carreira. “Minha formação em residência em neurocirurgia foi muito desafiadora. Havia poucas mulheres, por isso foi bastante solitário. Mas, eu estava disposta a passar pelas dificuldades por causa da minha paixão pela neurocirurgia”, lembra.
No país norte americano, a luta pela igualdade das mulheres na especialidade começou em 1990, com a criação do Women in Neurosurgery – WINS, grupo cujo objetivo é promover um ambiente cooperativo e de apoio entre as mulheres que praticam neurocirurgia, incluindo aquelas em treinamento para se tornarem neurocirurgiãs. À medida que o grupo cresceu, tornou-se uma organização internacional com membros na Ásia, Europa e África.
Em 2010, ao completar 20 anos de existência, alguns membros da Comissão WINS escreveram artigos e ensaios sobre suas experiências na neurocirurgia. Os textos compuseram o livro Heart of a Lion, hands of a woman, que mostrou a força da Comissão e de todas as neurocirurgiãs pelo mundo.
Apesar dos diferentes locais de atuação, as três neurocirurgiãs acreditam que o grande desafio da profissão é administrar o tempo entre a vida profissional e pessoal. “Nossa rotina é a mesma para todas as mulheres que abraçam uma carreira. Mas se temos paixão em nosso trabalho, tudo é possível”, finaliza a Dra. Bakhti.

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