Special Publication of the Brazilian Society of Neurosurgery - SBN

Edição 01 • Setembro de 2018

Futuras neurocirurgiãs /////////////////////////////////////////////////////

Os desafios de quem escolheu a especialidade recentemente

“Desconheço alguma personagem feminina da área que não tenha ao menos uma história de tratamento desigual para dividir conosco. Já ouvi várias e compartilho do sentimento de injustiça, mas também da força para superá-la”, diz a estudante de medicina, Cibelle Melo, de 22 anos. Ciente dos obstáculos, disposição para nadar contra a corrente e vontade de fazer parte da mudança. Este é o pensamento das futuras neurocirurgiãs.
Cibelle acredita que a neurocirurgia tem uma carga de “abnegação e sacerdócio” elevadíssima. “Uma das matérias introdutórias ao curso de medicina é a neuroanatomia e suas nuances. Desde o primeiro período, recordo-me de ter ficado absorta por tamanha complexidade já destrinchada e pela ideia de infinitude que aguarda ser descoberta. Lembro ter desejado, ainda como um sonho distante, que queria ser uma das responsáveis por isso. Hoje, na reta final do curso, permito-me olhar para trás e contemplar o fortalecimento desse anseio ao longo dos anos”, conta.

Cibelle Melo

Estudante do último ano de medicina da Universidade Federal da Paraíba (UFPB).

Iracema Araújo Estevão

Recém-formada em medicina pela Universidade São Francisco (USF).

Juliete Melo Diniz

Residente do quinto ano no Hospital do Servidor Público do Estado de São Paulo/IAMSPE.

Cibelle mora, atualmente, em João Pessoa e está no último ano do curso de Medicina da Universidade Federal da Paraíba. “Pretendo prestar o concurso para residência em neurocirurgia ainda este ano”, afirma. Além das atividades curriculares, ela divide seu tempo entre os estudos para as provas e o descanso e lazer com a família e amigos. “Desejo cultivar minhas amizades, ter uma família saudável e praticar tudo o que me motiva a ser mais e melhor”, explica.
As expectativas da estudante com a neurocirurgia são altas, mas ela sabe que ainda há muitos desafios pela frente. E acha que uma das maneiras de seguir em frente com mais facilidade é ter em quem se espelhar. “Ter pessoas inspiradoras que já desbravaram o caminho que pretendo seguir alimenta a convicção de que também posso trilhá-lo. E por isso agradeço. Ter companheiras para dividir a carga e compartilhar as mesmas inseguranças, desafios e sonhos torna tudo mais leve”, finaliza.

Outro olhar, mesma perspectiva

Iracema Araújo Estevão, de 26 anos, partilha da mesma ideia de Cibelle em relação a igualdade de gênero na neurocirurgia e está completamente empenhada em uma especialidade com maior presença feminina.
Recém-formada em medicina pela Universidade São Francisco (USF), é uma das organizadoras do Encontro de Mulheres na Medicina e já foi palestrante no Congresso da SBN onde dissertou sobre os temas “O que pode ser feito para encorajar as acadêmicas a entrarem na neurocirurgia” e “Por que ainda sonhar em fazer neurocirurgia hoje?”.
A médica escolheu a neurocirurgia ao longo do curso universitário e pretende prestar a residência no fim deste ano. “A especialidade era algo bem distante para mim no início da graduação, até porque eu não tinha muito contato com a área. Me aproximei devido a neuroanatomia que me fascinou e desde então procurei ligas acadêmicas para conhecer mais a fundo”, conta.
Ao ser questionada sobre os desafios, Iracema responde: “Não vejo como desafios, mas sim como constantes superações. Durante o meu percurso em busca da neurocirurgia tive alguns pontos que me motivaram a ser melhor a cada dia”.
A futura neurocirurgiã afirma que houve mudanças positivas em relação a igualdade de gênero, porém não acredita que o preconceito esteja totalmente extinto. “Ainda há algumas situações que vivenciamos e que passam quase despercebidas, como por exemplo, poucas mulheres são convidadas para fazer avaliações de trabalhos acadêmicos. São situações sutis. Mas, ao longo desses anos tem sido observado um grande avanço e a própria criação da Comissão Mulheres Neurocirurgiãs tem mostrado que assim como outras entidades internacionais, a SBN também busca debater sobre o tema, o que demonstra
que estamos no caminho certo”, afirma.
Para ela, o gênero não interfere nas atividades da área e a especialidade é uma questão de aptidão. “É necessário ter o perfil para a neurocirurgia”, finaliza.

Fase final da residência

A participação das mulheres na medicina vem aumentando progressivamente e a mesma tendência se observa nas especialidades cirúrgicas, entre elas a neurocirurgia.
Nos últimos cinco anos, como residente desta especialidade, recebi múltiplos questionamentos de estudantes interessadas em saber não apenas sobre o trajeto até a tão esperada vaga de residência, mas principalmente sobre a vida como mulher residente numa especialidade composta em mais de 90% por homens.
Decidi fazer neurocirurgia no terceiro ano da graduação e certamente este foi o período de maior dúvida. Se por um lado houve inúmeras pessoas para apontar dificuldades e incertezas (carga horária de trabalho, preconceito, questões familiares), por outro tive a oportunidade de conhecer neurocirurgiões que me incentivaram e me ajudaram a consolidar minha decisão. Diante disto continuei.
Durante as provas de residência ouvi relatos desanimadores sobre as entrevistas. Felizmente, as minhas se sucederam sem reveses. Fui aprovada em alguns serviços e optei por seguir no IAMSPE.
No IAMSPE as dúvidas se dissiparam. Passei a conviver com uma equipe que me incentivou no meu crescimento profissional e pessoal e pelos quais nutro grande admiração. Os primeiros anos requereram paciência e maior esforço físico, nenhuma barreira intransponível.
Nos anos subsequentes aprendi a operar, conclui mestrado e conheci diferentes serviços em outros países.
O paradigma e a cultura têm se modificado, dificuldades existem, mas o que se espera de um residente de neurocirurgia é dedicação e disposição independente do gênero.
Nesta fase final da residência, sigo com a tranquilidade de ter escolhido a especialidade correta e com a certeza de que nada, absolutamente nada, resiste ao trabalho bem feito.

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