Special Publication of the Brazilian Society of Neurosurgery - SBN

Edição 01 • Setembro de 2018

Matéria de capa /////////////////////////////////////////////////////

Pioneiras da neurocirurgia

Dra. Cleyde Cley da Silva Vescio

Formada pela Universidade de São Paulo – USP, nos anos 1970, com 1,53 metros de altura e apenas 44 quilos, Dra. Cleyde Cley foi a primeira mulher a cursar residência em neurocirurgia do Hospital das Clínicas – HC de São Paulo.
A médica tinha um avental especial devido ao seu físico e nunca teve nenhum tipo de privilégio por seu gênero. Enfrentou sim alguns descréditos, mas não enxerga como preconceito. “Ao optar pela neurocirurgia, eu tinha o direito à residência no HC por estudar na USP e foi natural que alguns colegas achassem que eu não chegaria ao fim da especialização. Eu me sentia desafiada sempre, mas nunca deixei de fazer nada que foi designado a mim”, conta a médica.

Ela acredita que a desconfiança vinha não apenas por ser mulher, mas pelo seu tipo físico mesmo, já que a neurocirurgia naquela época exigia muita força e resiliência. “Para abrir uma calota craniana, por exemplo, era preciso uma trepanação manual e depois usar a serra manual de Gigli. Além de toda esta força em cirurgias, havia a fase que exigia mãos firmes e a permanência em pé por horas”, lembra. Dra. Cleyde fazia tudo com muita dedicação e destreza e, em momento algum se sentiu prejudicada por ser mulher. “Sempre fui bem aceita e respeitada como profissional pelos colegas e principalmente pelos pacientes”, afirma.
Não teve inspiração para seguir a profissão, seus pais não eram médicos e tem a certeza que nasceu com a vocação para a medicina. “Desde pequena eu adorava brincar de hospital, de cuidar dos outros”, conta. Quando terminou a residência, foi trabalhar em um hospital particular e lá teve a oportunidade de assumir a liderança nas cirurgias. Naquela época, atendeu muitas emergências e sentiu os benefícios, raros, de ser mulher na especialidade. “Tanto pacientes homens quanto mulheres gostavam de ser atendidos por uma neurocirurgiã. Sentiam segurança”, afirma.
Também foi chefe de serviço em alguns hospitais particulares e, durante 28 anos, se dedicou ao Hospital Municipal do Tatuapé – SP, sendo a única mulher do período. Em 1974, Dra. Cleyde, com outras duas colegas do Rio de Janeiro, marcou mais uma vez a história da neurocirurgia. Elas foram as primeiras mulheres aprovadas no País para a obtenção do título de Especialista pela AMB – Associação Médica Brasileira. E, em 1978, Dra. Cleyde foi a primeira mulher aceita como membro da SBN, sendo a única durante alguns anos. “Vejo este episódio não apenas como um reconhecimento do meu trabalho e dedicação, mas também como grande responsabilidade. Por anos representei toda a classe de mulheres que objetivam a neurocirurgia como carreira e acredito ter sido um exemplo para todas elas”, comenta.
Aos 77 anos, a médica parou de operar e faz apenas atendimentos clínicos, em hospitais particulares. “Eu sinto muita falta das salas de cirurgia, às vezes até sonho que estou operando. Mas tive que parar não apenas pela força física que a área exige, mas também pela disposição de atender casos em finais de semana e madrugadas”, conta. Além dos atendimentos, ela também se dedica a sua segunda paixão – a arte. Já pintou dezenas de quadros e, como artista plástica, participou de diversas exposições em galerias de artes e salões, tendo recebido alguns prêmios.
Atualmente, é divorciada e optou por não ter filhos. “Dediquei a minha vida à neurocirurgia e não me arrependo de nada do que fiz. Tenho orgulho daquilo que fiz e deixei como legado”, afirma. Para a neurocirurgiã, determinação e coragem são os segredos para construção de uma carreia sólida em neurocirurgia. “O importante é saber que haverá desafios e que você será capaz de superá-los. Tudo vale a pena”, finaliza.

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