Special Publication of the Brazilian Society of Neurosurgery - SBN

Edição 01 • Setembro de 2018

CARREIRA DE SUCESSO /////////////////////////////////////////////////////

Pioneiras da neurocirurgia

“No meio do caminho tinha uma pedra. Tinha uma pedra no meio do caminho.” Trecho do poema ‘No meio do caminho’, de Carlos Drummond de Andrade
O poeta modernista brasileiro Carlos Drummond de Andrade escreveu, em 1928, o poema descrito na página anterior, considerado um escândalo na época por conter inúmeras repetições. Noventa anos depois, as frases do célebre escritor mostram que no caminho da vida há sempre um obstáculo. Todas as pessoas que tiveram que lidar com o inesperado e vencer um desafio, se veem nas palavras do poeta.
A paulista Dra. Cleyde Cley e a carioca Dra. Noya Chaves foram duas destas pessoas que poderiam ter inspirado o brilhante Drummond. Ambas desafiaram tudo o que estava em volta e resolveram se aventurar na neurocirurgia.

Nos anos 1970, quando optaram em seguir a especialidade, a neurocirurgia era vista como uma profissão masculina e as mulheres que cursavam medicina na época eram estimuladas a seguir as carreiras em obstetrícia, pediatria ou clínica geral.
Ao desafiarem esse senso comum, se tornaram referência no pioneirismo de mulheres nessa área da medicina. E servem ainda mais como exemplo quando contam a motivação principal para optar pela especialidade: ajudar a quem precisa. Naquele período, não existiam equipamentos para auxiliar em uma cirurgia como a tomografia, ressonância ou ultrassonografia de hoje. Os diagnósticos eram feitos por meio de angiografia com punção direta das carótidas e as craniotomias eram feitas com trépano manual. Abrir um crânio, por exemplo, exigia muito mais força física e resistência. Como esperavam, não tiveram nenhum tipo de benefício nas atividades físicas e as mesmas tarefas feitas por homens eram desempenhadas por elas. Poucos acreditavam que elas aguentariam, mas seguiram firmes e se tornaram grandes exemplos na história da neurocirurgia.

Dra. Noya Rocha da Silva Chaves

Em 20 de julho de 1940, nascia Noya, a filha caçula de um casal humilde que morava no Rio de Janeiro, mas vieram da lavoura no estado do Espírito Santo.
Noya teve uma infância simples ao lado da irmã mais velha, mas a adolescência foi um período que reservou o primeiro desafio da vida da futura médica. Ainda jovem, durante quatro anos sofreu com uma tuberculose ganglionar. “Quando entrei no primeiro ano da faculdade eu estava muito debilitada devido ao intenso sangramento menstrual que apresentava por não ovular”.
Mesmo com dificuldades para fazer com que seu corpo acompanhasse a sua mente, Dra. Noya resistiu e insistiu no curso de medicina da UEG – Universidade do Estado da Guanabara -–que, posteriormente, passou a ser UERJ.

Era uma das 6 mulheres da classe que tinha 70 homens e já no primeiro ano conheceu Victor Leonardo, que estava no segundo ano de medicina e depois de seis anos seria seu marido. A vontade de se especializar em neurocirurgia veio das maravilhosas aulas ministradas pelo professor Pedro Sampaio, no quinto ano do curso médico e de sua habilidade manual. Noya sempre foi muito boa em trabalhar com as mãos. Já na escolha pela carreira, causou certo espanto em algumas pessoas. “Quando um colega de curso do Leonardo soube que eu ia fazer neurocirurgia ele questionou meu marido – namorado na época – “você vai deixar? Isso não é especialidade para mulher. Meu marido disse: ela vai fazer o que ela quiser e eu vou apoiá-la”, lembra com carinho.
Em 1967, Dra. Noya entrou como bolsista no Pronto Socorro (PS) do Hospital Municipal Miguel Couto – RJ. Foram dois anos trabalhando no PS. Durante a experiência, conversou com o professor, chefe do serviço de neurocirurgia desse hospital, se poderia ajudar o neurocirurgião de plantão fora do horário de trabalho e auxiliá-lo nas atividades, e ele deixou. “Anos mais tarde, por meio de um neurocirurgião, descobri que este professor atendeu o meu pedido desacreditando que eu iria conseguir. Eu não sofri preconceitos diretos, mas fui desacreditada em algumas ocasiões”, comenta a médica.
Em 1968, já no sexto ano, teria que fazer o “internato” na cadeira escolhida como especialidade. “Procurei o catedrático do serviço de neurocirurgia do HUPE – professor Ribe Portugal – e perguntei se poderia frequentar o serviço dele. Fui muito bem aceita e acreditada. Na ocasião, o chefe de clínica era o professor Pedro Sampaio”, lembra.
Em 1969, Dra. Noya se tornou a primeira residente em neurocirurgia no Hospital Pedro Ernesto. Em 1970, foi contratada como médica do serviço e, em 1974, fez concurso de especialização e foi aprovada.
Seguiu sua carreira na instituição como neurocirurgiã e professora de medicina na UERJ. Após a saída do professor Portugal da cátedra e a entrada do professor Pedro Sampaio, foi nomeada como chefe de clínica onde permaneceu até 1997 quando se aposentou.
Trabalhou também como plantonista nos serviços de emergência do Hospital Getúlio Vargas e depois no Hospital Geral de Bonsucesso. Diz, no entanto, que sua verdadeira “casa” foi o HUPE, pois foi lá que se fez médica, aprendeu e ensinou neurocirurgia. “Os desafios da profissão, no entanto, foram grandes, não só para mim como para os demais colegas. Em uma época em que haviam poucos especialistas e menos tecnologias, o dia a dia era bastante intenso. Naquela época não contávamos com toda a tecnologia de equipamentos de saúde que nos ajudassem a identificar as doenças e nos auxiliassem nos tratamentos e os exames complementares, como mielografia e pneumoencefalografia, nos davam dados indiretos e as arteriografias eram feitas por punção direta da carótida. Após entrar em cirurgia e depois passar visita nos pacientes da enfermaria, eu descia para o serviço de radiologia onde auxiliava e aprendia a fazer os exames neuro- radiológicos. Devido ao intenso trabalho, algumas vezes eu quebrava duas ou três ampolas de glicose hipertônica, bebia para substituir o almoço que não tivera tempo de fazer”, lembra.
Mesmo com a vida agitada, a neurocirurgiã afirma com toda a certeza que não teve que abdicar de nada para seguir adiante.
Em 13 de fevereiro de 1969, casou-se com seu namorado de faculdade, Leonardo, que havia se especializado em psiquiatria. “Por conta de problemas ovarianos, eu não podia gerar um filho. Então, à medida que fomos nos estabilizando na profissão, e depois de muitas conversas, decidimos adotar uma menina com 11 dias de nascida, Tatiana, atualmente com 44 anos. No ano seguinte, adotamos a segunda menina com um mês e meio, Cristiane. Hoje com 43 anos”, afirma.
A Dra. Noya teve uma carreira brilhante e desempenhou com maestria a profissão que escolheu. Em 1997, ela se aposentou e, atualmente, se dedica à família e à saúde. Faz hidroginástica, pintura em quadros, passeia com seus dois netos, adora tecnologia e, em fevereiro deste ano, completou 49 anos de casada. Para os jovens neurocirurgiões, a doutora não deixa conselhos. “Sou mais a favor dos exemplos. Eu aprendi muito com os exemplos. Persistência, coragem e vontade de vencer é o segredopara seguir em qualquer profissão.
Eu nunca fugi das minhas obrigações. Sempre acompanhei os residentes nas cirurgias e fico feliz em ver que eu deixei alguma coisa, porque dei um  bom exemplo não só na vida pessoal como na profissional”, finaliza.

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